O papel da Casa Branca e a traição da revolução no Egito

Análise: Sara Khorshid / NYT

O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2012 | 03h07

Resultados preliminares da eleição no Egito mostram que Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, será o próximo presidente. Mas, mesmo que seja declarado vencedor, a votação não será um marco democrático. Após a Suprema Corte dissolver o Parlamento e os militares restringirem a autoridade do presidente, ele será um chefe de Estado sem força, submisso a um conselho militar autoritário.

O Exército agarrou-se mais ao poder, conferindo a si mesmo o controle das leis, do orçamento e o direito de indicar a comissão que redigirá a nova Constituição. Morsi não terá voz em política externa e nas relações com os EUA, que enviam ao Egito uma ajuda militar anual de US$ 1,3 bilhão.

A recusa do Exército em ceder o poder era evidente há meses, mas os EUA continuaram a apoiá-lo - as bombas de gás lacrimogêneo americanas ainda são usadas na repressão. As últimas votações no Egito deram a impressão de que o país havia se democratizado, mas o objetivo dos militares sempre foi sufocar a aspiração popular e retardar a transição.

Tudo segue como antes da revolução. Os comandantes do Exército e os ministros não mudaram e os direitos humanos continuam sendo violados. Uma democracia não pode emergir da eleição de um Parlamento e de um presidente antes de ser aprovada uma Constituição. Além disso, ela só pode sobreviver onde há estado de direito e não cria raízes em um país assolado pelo caos legal e político.

Os EUA têm sua parcela de culpa. Apesar do confisco do poder pelo Exército, Washington restaurou a ajuda militar ao Egito, ignorando o requisito imposto pelo Congresso que ligava o dinheiro à proteção das liberdades fundamentais. A Casa Branca poderia ter se aliado à população, mas não quis. A dúvida é saber se Barack Obama deseja mesmo um Egito democrático. Se ele apoiasse a busca dos egípcios pela liberdade, deveria entender que a democracia só se consolidará por meio da revolução de 2011, não pela força dos militares. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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