O papel das milícias sunitas no Iraque pós-EUA

Crucial para derrota da insurgência, movimento Despertar tem sido pressionado pelo governo xiita a depor suas armas

ANDREW E., KRAMER , THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, ANDREW E., KRAMER , THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h03

Artigo

Numa reunião com vários vizinhos, o mais leal aliado dos Estados Unidos no Iraque, o xeque Ahmed Abu Risha, sentava numa tenda tomando chá em uma xícara de vidro absurdamente minúscula. Cumprimentava visitantes com um caloroso "meu querido" e um beijo no rosto. A guinada positiva da guerra no Iraque, iniciada em 2006, costuma ser atribuída a ele. Na ocasião, os líderes tribais locais se reuniram para combater a Al-Qaeda da Mesopotâmia, filial da rede terrorista no Iraque. Segundo suas estimativas, Risha ainda comanda cerca de 80 mil milicianos.

A poucos dias da conclusão da retirada dos EUA do Iraque, essas unidades sunitas, conhecidas como movimento Sahawat (Despertar), ainda não foram integradas à nova força policial e ao Exército iraquiano. Em meio à poeira do deserto, homens comuns de jeans e fuzis patrulham postos de controle em todo o Iraque ocidental, como parte da força de ocupação deixada pelos EUA.

Alguns membros do Despertar são antigos rebeldes e ex-integrantes do Partido Baath, de Saddam Hussein. Eles combateram numa ala nacionalista do levante sunita no início da guerra. Sem a proteção dos americanos, as relações sempre delicadas entre o Despertar e o governo central, dominado pelos xiitas do premiê Nuri al-Maliki, estão se tornando cada vez mais tensas. Agora, o governo quer que o Despertar se dissolva até 31 de dezembro, prazo final para a saída dos militares americanos.

Em entrevista, Abu Risha disse que as milícias tribais no Iraque ocidental provavelmente não deporão rapidamente as armas - e, certamente, não o farão no fim do mês. "Não acredito que os membros do Despertar abram mão de suas armas", afirmou, acrescentando que o problema era em razão da falta de proteção oficial contra a Al-Qaeda. "Eles querem ter a possibilidade de se defender. As armas que carregam são pessoais."

Os chefes sunitas da Província de Anbar mudaram inesperadamente de lado em 2006 e 2007, na decisão talvez mais importante para a estabilidade na região, depois da guerra e da insurreição. Uma vez ao lado dos americanos, eles foram de enorme ajuda na caça a antigos aliados insurgentes, muitos deles membros das milícias islâmicas, entre elas da Al-Qaeda.

Integrantes da família de Abu Risha chamaram a atenção dos comandantes americanos na Província de Anbar, atacando caminhões que transportavam militantes da Al-Qaeda que trafegavam pela rodovia, em 2006. Era mais um ato de vingança do que política: a Al-Qaeda havia assassinado oito membros da família. No entanto, mostraram que a tribo e os EUA tinham um inimigo comum.

Logo, pelotões de fuzileiros navais passaram a frequentar o complexo participando de banquetes à base de cordeiro e arroz e lutaram lado a lado com os antigos rebeldes e baathistas que poucos meses antes combatiam.

Agora, a repressão aos baathistas voltou à pauta. O governo central dominado pelos xiitas prendeu destacados membros sunitas acusados de serem integrantes secretos do Partido Baath, há muito tempo dissolvido. Ao mesmo tempo, está ganhando força uma revolta sunita, a centenas de quilômetros mais ao norte dali, contra o governo alinhado com o xiitas na vizinha Síria.

No mês passado, policiais feriram dois guardas e detiveram dois outros em uma incursão na casa de um sunita, o xeque Albo Baz, na Província de Salahadin, provocado um protesto de vários milhares de sunitas em Samarra, uma cidade dividida entre as seitas. Isso ocorreu depois que, em outubro, a polícia prendeu em uma operação 600 suspeitos de serem simpatizantes do Partido Baath, acusados de planejar um golpe.

Infelizmente para os sunitas, o governo exibiu alguns desses presos na TV estatal em um espetáculo bizarro: os parentes de suas supostas vítimas foram convidados para entrar na sala e a gritar contra os suspeitos, exigindo sua execução. Programas desse tipo eram uma tradição na TV estatal de Saddam Hussein, embora, naquela época, os suspeitos fossem mais provavelmente xiitas.

Na entrevista, Abu Risha mostrou um envelope com fotos dos estragos provocados por estilhaços de granada em um carro blindado, afirmando se tratar da prova de que, há dois meses, foi alvo de uma tentativa de assassinato em uma rodovia em Abu Ghraib.

Ele responsabiliza pelo atentado uma brigada da polícia predominantemente xiita, pertencente ao governo central, porque a bomba que atingiu seu carro, plantada no acostamento, felizmente, foi colocada a 50 metros de uma das torres de vigilância da brigada. O governo desmente, embora o clérigo antiamericano Moqtada al-Sadr tenha concordado em abrir uma investigação naquela unidade. Maliki e outros políticos xiitas insistem que a polícia é imparcial.

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