O papel de Moscou no conflito quirguiz

Acredita-se que a Rússia acendeu o estopim da crise e agora reluta em enfrentar a consequência de sua ações

Simon Tisdall, The Guardian, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2010 | 00h00

Se a história pode servir de guia, a violência étnica no sul do Quirguistão não deve se prolongar nem desencadear uma conflagração mais ampla, alcançando os vizinhos Usbequistão e Tajiquistão. Revoltas similares provocadas por disputas de terra, altas nos preços dos alimentos e resultados de eleições, que eclodiram no dividido Vale de Fergana em 1990 e 2005 aquietaram-se, com ou sem uma intervenção estrangeira como a desejada pelo governo provisório em Bishkek.

Mas tais precedentes não dão muita tranquilidade para as grandes potências - Rússia, China e Estados Unidos -, cujos interesses estratégicos, econômicos e de segurança estão cada vez mais afetados pela instabilidade na Ásia Central. Os problemas não resolvidos do Quirguistão, como sua extrema pobreza, o baixo nível de escolaridade da população rural - maioria no país -, as rivalidades tribais e étnicas, as divisões entre o norte e o sul e a propagação da ideologia islâmica extremista, sugerem que a próxima crise nunca está muito longe.

Acredita-se que foi a Rússia que acendeu o estopim desses recentes distúrbios, arruinando a posição do presidente agora deposto, Kurmanbek Bakiyev. Moscou teria motivos para isso, como controle de rotas-chave de trânsito e energia e o desejo de manter, ou restaurar, sua influência política na antiga esfera soviética. Os russos olham com muita desconfiança a intrusão chinesa e americana na região.

Perigos. Mas, ao manifestar-se depois de a Rússia ter ajudado a consolidar o golpe de abril que derrubou Bakyiev, o presidente russo, Dmitri Medvedev, admitiu tacitamente os perigos inerentes à política intervencionista defendida pelo premiê Vladimir Putin. "Procuramos intervir numa situação que, no final das contas, envolve um assunto soberano de outro país para impedir um banho de sangue", disse. "Quanto a se esse tipo de situação pode ocorrer em outros países nessa região pós-soviética... tudo é possível... pode se repetir em qualquer parte".

Parece que agora Moscou reluta em enfrentar as consequências de suas ações, rejeitando um pedido para enviar tropas de paz à região e remetendo a questão para a impotente Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, sigla em inglês) das ex-repúblicas soviéticas. Por outro lado, pode estar satisfeito com a reação de outros líderes da Ásia Central.

Como observou MK Bhadrakumar, ex-diplomata indiano, ao jornal Asia Times, o presidente Islam Karimov do Usbequistão, nervosamente largou tudo e seguiu às pressas para Moscou após o golpe no Quirguistão.

"Karimov é um perspicaz observador da política regional", disse ele.

"Nos últimos tempos, Tashkent, capital usbeque, vinha se acercando do Ocidente. Contudo, os tumultos em Bishkek ressaltaram o papel peculiar de Moscou como mantenedor da segurança regional", afirmou o diplomata.

A China tem sido mais circunspecta, emitindo comunicados banais, anódinos, pedindo uma solução pacífica. Mas a crise mostrou porque os chineses não podem ficar indiferentes ou distantes do problema. O Quirguistão, um importante parceiro comercial encontra-se nas rotas vitais para os mercados exportadores asiáticos centrais da China, especialmente o Casaquistão. Mais importante ainda, com os conflitos constantes na província chinesa de Xinjiang, amplamente muçulmana, e a população uigur do Quirguistão com cerca de 250 mil pessoas, a estabilidade nesse país é uma preocupação de segurança-chave para Pequim.

Escrevendo para o Moscow Times, o escritor Richard Lourie disse que um novo "grande jogo" está em curso na Ásia Central. Durante a 1.ª Guerra, disse ele, o Kaiser Guilherme II, da Alemanha, tentou instigar uma jihad islâmica contra a Índia britânica, aposta que a revista Punch apelidou de "Deutschland Uber Allah". A China temia agora uma agitação islâmica similar que se espalharia do vale Fergana para chegar a seu território. "Países instáveis como o Quirguistão podem se tornar base e refúgio de insurgentes uigures", disse Lourie.

A China também está atenta para defender sua cada vez mais longa rede de dutos na Ásia Central. "A China quebrou o monopólio russo da transmissão de energia na região, tendo concluído um gasoduto que vai do Turcomenistão à China Ocidental e atravessa países que são aliados russos, como Usbequistão e Casaquistão. A lógica exigirá que eles protejam esses ativos valiosos e caros. É nesse ponto que a política externa chinesa, que não se preocupa muito com a ética, poderá parecer, repentinamente, menos atrativa (para os governos regionais)", concluiu o escritor.

Da mesma maneira que o CSTO, essa crise deixou a tão elogiada Organização de Cooperação de Xangai, patrocinada por Pequim e que abrange Estados da Ásia Central, parecer ineficaz e irrelevante. De acordo com Richad Weitz, ao escrever para o The Diplomat, o fraco desempenho dessa organização levanta dúvidas sobre sua utilidade para solucionar conflitos regionais futuros e, possivelmente, de maior porte.

Impotência. Em meio a essas complexas maquinações e cálculos, o governo Barack Obama, e não é a primeira vez, surge como um espectador impotente, um inocente numa terra selvagem. A base militar americana em Manas, logisticamente importante para o transporte de provisões para a guerra no Afeganistão, é a principal preocupação de Washington no Quirguistão, mesmo que não se manifeste muito em termos de autodeterminação e direitos humanos.

Mas as implicações do golpe orquestrado pela Rússia, do mesmo modo que o vazamento de petróleo no Golfo do México, demoraram para ser captadas pela Casa Branca e, em meio a uma segurança cada vez mais deteriorada, o futuro no longo prazo de Manas é duvidoso. Como também a reforma prevista da Constituição quirguiz e as eleições parlamentares marcadas para o final do ano. Tendo trocado a promoção da democracia pelo "realismo" da política externa, Obama corre o risco de enfrentar o pior de ambos os mundos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA DE POLÍTICA EXTERNA

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