O papel dos brancos no novo Zimbábue

Apesar de perseguidos pelo regime de Mugabe, alguns, como Brian James, se transformaram em líderes locais

Douglas Rogers, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

No meio de uma onda de violência política pós-eleitoral no Zimbábue, em 2008, Brian James, um fazendeiro branco que havia sido expulso de sua propriedade anos antes, durante o confisco de terras pertencentes a brancos pelo presidente Robert Mugabe, viu-se cercado por um grupo de zimbabuanos no centro de Mutare, minha cidade natal.

A multidão de 50 pessoas dançou, cantou e entoou slogans políticos durante 20 minutos, até James poder levantar a mão, agradecer pelo seu apoio e anunciar que estava honrado por ter sido eleito prefeito da terceira maior cidade do país.

Este domingo marca o 30º aniversário da independência do Zimbábue do domínio branco e da ascensão ao poder de Robert Mugabe. Naquela época, Mugabe era saudado como um libertador e um conciliador.

"Se ontem eu os combati como inimigos, hoje vocês se tornaram amigos", disse ele na ocasião aos brancos. Durante muito tempo, ele honrou sua palavra. Em meados dos anos 90, o Zimbábue havia se tornado um dos países mais estáveis e prósperos da África.

Em 2000, porém, semanas depois de perder um referendo constitucional para permanecer no poder, Mugabe iniciou as catastróficas invasões de terras que resultaram na expulsão de quase todos os 4.500 fazendeiros brancos do país e na ruína do que foi, um dia, um modelo de transição pós-colonial.

Desde então, a narrativa do Zimbábue tem sido de raça. Raro é o discurso em que Mugabe não vocifera contra brancos, colonialistas, imperialistas ou o Ocidente. Membros de seu partido, o Zanu-PF, falaram de uma "solução ruandesa" para os brancos zimbabuanos.

Os ocidentais simplesmente aceitaram essa história de antagonismo entre negros e brancos, mas, com isso, não se deram conta da história inspiradora do que realmente ocorreu no Zimbábue na última década.

Após anos de desemprego em massa, inflação instável, escassez crônica e violência do Estado, os zimbabuanos simplesmente não ligam para a cor da pele. Mugabe conseguiu, na verdade, o exato oposto do que se propôs a fazer em 2000: forjar um Estado pós-racial.

A história completa de Brian James é uma prova da façanha involuntária de Mugabe. James se interessava pouco por política antes de perder sua terra, em 2003. "Eu só queria cultivar e jogar críquete nos fins de semana", diz. Depois das expropriações, porém, ele ingressou no principal partido de oposição, o Movimento para a Mudança Democrática (MDC, na sigla em inglês). Ele rapidamente ascendeu nas fileiras do partido e foi eleito prefeito por um eleitorado quase todo negro.

James não é um exemplo isolado. Um dos políticos mais populares do país é Roy Bennett, outro ex-fazendeiro, conhecido pela sua legião de seguidores negros como "Pachedu", ou "um dos nossos". Quando Bennett foi preso por uma acusação forjada de traição, em 2009, centenas de zimbabuanos negros cercaram a prisão, impedindo que agentes secretos o levassem para um lugar mais remoto onde se temia que pudesse ser torturado.

Julgamentos. Depois, há a visão inspiradora de fazendeiros brancos que vêm contestando a legalidade das expropriações de terras em uma corte regional de direitos humanos, marchando para o tribunal de braços dados com seus advogados negros, com frequência mulheres dinâmicas que conhecem as leis e a Constituição do país melhor do que todos os que conduzem o julgamento. Isso contraria a imagem de um país dividido pela raça, que Mugabe tenta passar.

Meus pais, donos de um albergue para mochileiros, fazem parte desse novo Zimbábue. Como a maioria dos brancos, um dia, eles se afastaram da política. No entanto, em 2002, depois que sua casa foi cercada, meu pai ingressou no MDC. Em 2005, seu albergue se tornou um ponto de reunião para políticos negros dissidentes, que se disfarçavam de padres para não serem detidos pelas milícias de Mugabe.

Em 2008, o albergue se tornou um abrigo para três ativistas negros, Pishai Muchauraya, Prosper Mutseyami e Misheck Kagurabadza, que haviam sido eleitos em redutos de Mugabe e, agora, estavam fugindo dos esquadrões da morte do governo. Minha mãe, uma africana branca, ainda se emociona quando fala da coragem dos três "fugitivos", todos agora amigos e com assento no Parlamento, como parte do dividido governo de unidade nacional criado entre Mugabe e o MDC, em 2009.

Mugabe sabe exatamente o que está fazendo ao invocar constantemente uma retórica baseada na raça. Ao enquadrar a crise no Zimbábue como uma luta contra o Ocidente - contra o mundo branco - ele escapa da censura de outros líderes pós-coloniais que entendem as histórias de seus países da mesma maneira. E, quando o Ocidente permite que o discurso de Mugabe fique sem resposta, faz exatamente o que ele deseja.

Nas críticas raciais, alguns fatos básicos e importantes são desconsiderados. Mugabe acusou fazendeiros brancos de serem "assentados" da era colonial, mas cerca de 70% deles, na verdade, compraram suas terras após a independência do país, com permissão assinada pelo próprio Mugabe. Longe de possuírem 70% da terra do Zimbábue, como amplamente se acreditava, esses fazendeiros brancos possuíam apenas a metade de nossas terras comerciais - apenas 14% do total de terras. Com essa terra, porém, eles costumavam produzir mais de 60% de todas a produção agrícola e 50% de todos os ganhos com exportação. Basta olhar o declínio da produção alimentar e o colapso da economia, desde 2000, para notar como os fazendeiros brancos eram fundamentais para o bem-estar do Zimbábue.

O outro alvo importante e quase sempre ignorado nos confiscos de terra: os trabalhadores agrícolas negros. Cerca de 300 mil negros estavam empregados em fazendas de brancos até o ano 2000 - dois milhões de pessoas, incluindo seus dependentes. Eles sempre apoiaram o MDC.

Assim, com a destruição das fazendas de brancos, Mugabe eliminou uma grande base da oposição negra. Não surpreende, portanto, que trabalhadores negros, com frequência, tenham apoiado empregadores brancos para resistir aos invasores violentos de Mugabe.

Quando foi que isso ocorreu na África pós-colonial? Meus amigos nos Estados Unidos muitas vezes me perguntam se há alguma esperança para o Zimbábue. Eu sempre respondo que sim. Depois, lhes conto a história de um funeral.

Não muito depois de eleger-se prefeito, Brian James perdeu sua esposa, Sheelagh, em um acidente de carro em Mutare. O enterro foi realizado nos gramados de um clube de golfe local e 300 pranteadores compareceram, entre eles fazendeiros brancos, amigos negros e um coro do MDC.

No dia anterior ao enterro, meu pai estava com Pishai Muchauraya, o ex-fugitivo do MDC e futuro membro do Parlamento, que recebeu uma ligação telefônica do líder do coro. Eles tinham um problema: jamais haviam comparecido ao funeral de uma mulher branca e não sabiam o que cantar. "O que isso tem a ver?", disse Muchauraya. "A sra. James era uma africana como vocês. Cantem o que cantam normalmente." Quando ele se virou para se desculpar pela interrupção, viu que meu pai tinha lágrimas nos olhos. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É AUTOR DE "THE LAST RESORT: A MEMOIR OF ZIMBABWE"

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