O Paquistão escondido em seu labirinto

A China precisa de Islamabad para conter o Taleban e os atentados dos muçulmanos uigures em seu território

ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2015 | 02h00

Há uma sensação de hermetismo em relação ao Paquistão, atualmente, como se o país - localizado na antiga rota que do Ocidente levava à Ásia, quase como uma ponte natural - se tivesse imposto uma espécie de isolamento. A fronteira com a Índia, que divide o Punjab, não está muito distante dessa grande cidade. Ela é mais uma barreira do que uma porta de entrada. A fronteira com o Afeganistão é problemática em razão de sua inexistência. A fera criada em nome da política da "profundidade estratégica" (o que quer que isso signifique), o Taleban em sua versão paquistanesa, massacrou 134 crianças na Escola Pública do Exército de Peshawar no fim do ano passado. Não surpreende que o turismo seja praticamente nulo.

Caminhei na direção da mesquita Badshahi e do Forte Lahore - altas muralhas, de um vermelho pardo, magnífica em suas dimensões. Não havia um estrangeiro à vista, nenhuma câmera clicando. O presidente Barack Obama irá para a Índia, e o Paquistão não é uma das prioridades do seu programa - se é que consta. Ninguém em Washington está mais preocupado em dividir igualmente as visitas entre Nova Délhi e Islamabad.

Ah, sim, o Afeganistão, o tesouro americano e serviço de inteligência do Paquistão (ISI): quanto menos se falar a respeito, melhor.

A Índia é uma democracia e uma grande potência em ascensão. O Paquistão é um país muçulmano que perdeu a metade do seu território em 1971, e alterna um governo militar a outro supostamente democrático, sem jamais se libertar da angústia da aniquilação, apesar de suas armas nucleares, seus primeiros-ministros suscetíveis a um final violento, como as mulheres de Henrique VIII, lutando para definir sua identidade quase 68 anos depois de sua criação. A névoa da guerra só rivaliza com a névoa do Paquistão em que Osama bin Laden viveu e atuou durante anos.

Mas talvez algo agora esteja se movendo na penumbra. Fala-se muito de Pequim. A China precisa do Paquistão para manter a Índia ocupada; ela não quer que a Índia se liberte de sua dor de cabeça paquistanesa.

Portanto, Pequim ajuda o Paquistão com tecnologia militar. Constrói centrais nucleares (os sauditas também ajudam o Paquistão com grandes doações, consideradas em geral uma garantia informal de proteção, com as bombas nucleares paquistanesas, caso a família real ou Riad precisem delas).

Mas os interesses mudam. Agora, a China precisa do Paquistão numa outra frente. Este mês, um homem-bomba da etnia uigur matou oito pessoas na instável província chinesa de Xinjiang, perto da fronteira do Paquistão. Seu ataque foi o último de uma série cometida por muçulmanos uigures revoltados com a dominação dos chineses da etnia han. Alguns uigures aderiram à jihad islâmica, uma ideologia para a qual tanto o Paquistão quanto o Afeganistão oferecem muita educação e treinamento terrorista.

Neste sentido, frear o Taleban agora parece um pouco mais atraente para os chineses do que antes. E, como os Estados Unidos acabaram aprendendo, se se pretende fazer algo a respeito do Taleban, é melhor fazê-lo com o Paquistão.

Tudo isso constitui o pano de fundo de uma questão interessante: a China fará seu ingresso formal no cenário diplomático mundial tentando intermediar as conversações entre o Taleban afegão, o governo do presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, e o aliado paquistanês. Será que a China do presidente Xi Jinping começará a jogar seu peso estratégico? Já não era sem tempo.

Os Estados Unidos não podem carregar o peso do mundo; eles têm outras prioridades agora. A China poderá ajudar quando as tropas de combate americanas se retirarem. Ghani quer iniciar conversações com o Taleban. Desde que ele assumiu o cargo, iniciou um degelo entre o Afeganistão e o Paquistão. O ataque à escola de Peshawar fez com que se começasse a pensar quanto custou a Islamabad julgar que existisse um "bom Taleban" no Afeganistão e um "mau Taleban" no Paquistão.

Evidentemente, um alimenta o outro. A China está conversando com o Taleban. Ela exerce certa influência sobre o Paquistão.

Mas ceticismo é a palavra de ordem. A guerra afegã é uma longa história agora. Entretanto, a mudança das prioridades estratégicas americanas, a mudança de governo no Afeganistão, a mudança de humor em Islamabad, e a mudança das necessidades na China criaram espaços. Esta é uma questão na qual o presidente Obama e o presidente Xi poderão encontrar uma causa comum.

O Paquistão não se livrará de seus problemas por meio de uma resolução afegã, mas ela ajudará. O absurdo do "caminho estratégico" deve dar lugar para a prudência da abertura comercial - e não apenas na fronteira ocidental. O pragmatismo sino-indiano poderá nortear o pragmatismo indiano-paquistanês - quem sabe.

Existe muita energia no Paquistão. Um suicida do Taleban matou cinco pessoas em Lahore este mês. Mas o povo respondeu realizando bravamente o Festival Literário de Lahore, um assombro em matéria de criatividade, ecletismo, ideias e diálogo. O Paquistão precisa de abertura. Está na hora de sair da névoa e de relegar ao esquecimento fantasmas de outras eras. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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