O Paquistão precisa de ajuda urgente

O Paquistão está à beira do caos e o Congresso dos EUA numa posição crucial: os parlamentares americanos podem apressar esse processo fatídico, interrompê-lo ou até mudar a ordem das coisas. A rapidez e as condições com que for aprovada a ajuda de emergência para Islamabad influirão na capacidade do Exército e do governo de resistirem às investidas do Taleban. E devem afetar a imagem dos EUA na região. Os paquistaneses estão buscando provas do compromisso dos EUA e do presidente Barack Obama assegurou. Desde que Obama anunciou uma revisão estratégica da política americana para Afeganistão e Paquistão, as condições na região se deterioraram tanto que o Afeganistão foi colocado no topo de sua política externa. Os paquistaneses enfrentam uma insurgência taleban no norte, cuja base de operações não está só entre os pashtuns, mas tem elos com a Al-Qaeda e grupos jihadistas em Punjab, Sindh e no Baluchistão. Em questão de meses, essa ofensiva pode se converter num movimento nacional e a violência já vem se alastrando. Nos últimos dias, pelo menos 36 pessoas foram mortas em Karachi. No passado, muitos grupos jihadistas, incluindo o Taleban afegão e paquistanês, foram favorecidos pelos serviços de inteligência e pelo Exército do Paquistão. O governo Bush ignorou o fato durante anos, injetando mais de US$ 11 bilhões no país. Grande parte desse dinheiro foi para o Exército, que adquiriu armamento para combater a Índia, seu inimigo histórico, e não a insurgência. A recente contraofensiva contra o Taleban foi realizada em parte por pressão dos americanos e por uma mudança drástica na opinião pública de oposição ao Taleban. Muitos começam a perceber que o país está ameaçado por uma revolução sangrenta. Essa pressão pode causar uma mudança na política do Exército em relação à Índia e ao Afeganistão. Nem Exército nem governo têm uma estratégia de contrainsurgência ou plano para solucionar o problema de um milhão de refugiados que fugiram dos combates. Segundo as autoridades, o país está falido e não há dinheiro para combater os terroristas nem cuidar dos refugiados. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, pediu US$ 497 milhões para um fundo de emergência destinado a estabilizar a economia do Paquistão, fortalecer os serviços de segurança e ajudar os refugiados. O secretário da Defesa, Robert Gates, pediu US$ 400 milhões para o Exército paquistanês. Os congressistas estão hesitantes e querem ligar a ajuda aos US$ 83 bilhões que o governo solicitou para seu esforço de guerra no Iraque e no Afeganistão. O Paquistão está deteriorando. O atraso na aprovação é perigoso. O Congresso precisa autorizar a liberação desse dinheiro rapidamente e sem impor condições, dando ao governo Obama instrumentos para convencer a população paquistanesa de está sendo ajudada. Os congressistas deveriam determinar que a ajuda para organizações de apoio ao desenvolvimento, especialmente nos setores agrícola, de educação e criação de empregos, não deve ser condicionada. A flexibilidade dos EUA para estabelecer um mínimo de condições pode ser negociada mais tarde, assim que ajuda comece a ser enviada, o que pode ser um modelo para outros países doadores na Europa e Japão. Por três décadas venho falando sobre o incêndio que a militância islâmica tem provocado na região. Não quero ver meu país afundar apenas porque o Congresso está mais preocupado com detalhes do que com o quadro geral. Sim, são necessárias grandes mudanças de comportamento e políticas novas por parte do Exército, dos serviços de inteligência e do governo civil. Mas amanhã poderá ser muito tarde. O Paquistão precisa dessa ajuda agora. *Ahmed Rashid é jornalista paquistanês e autor de Descent into Chaos: The U.S. and the Disaster in Pakistan, Afghanistan and Central Asia (Descida ao Caos: os EUA e o desastre no Paquistão, Afeganistão e Ásia Central)

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