O paradoxo de Dempsey

Chefe do Estado-maior dos EUA sabe que grandes guerras serão raras, mas violência para fins específicos será maior

MICAH ZENKO, FOREIGN POLICY, É PESQUISADOR DO COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2012 | 02h03

O general Martin Dempsey, chefe do Estado Maior Conjunto dos EUA, usa sua autoridade para tratar de algumas questões bem difíceis. Como seu predecessor, o almirante Mike Mullen, Dempsey não evita temas controversos, desde o que os militares israelenses poderão fazer com o suposto programa de armas nucleares do Irã (atrasá-lo por "uns dois anos") até a verdadeira praga entre os militares, as agressões sexuais (que "enlameiam a nossa profissão"). Podemos questionar algumas afirmações de Dempsey - como eu fiz -, mas ele merece crédito por simplificar questões cruciais em um grau raro entre autoridades civis.

Um de seus temas preferidos e mais mencionados é o paradoxo da segurança, que ele ampliou em discurso em outubro. "Vivemos em uma era em que a violência se encontra num patamar menor. Os conflitos entre Estados são muito menos prováveis do que no passado. O problema é que outros tipos de conflitos, outros tipos de violência, têm uma probabilidade exponencialmente maior de ocorrer dada a evolução da tecnologia. A era da informação permite que organizações, indivíduos e nações de porte médio, se quiserem, adquiram competências que até agora eram próprias dos grandes Estados. Portanto, é um paradoxo: os grandes conflitos são menos prováveis, mas as chances de violência e dos que usam a violência para propósitos até mesmo ideológicos é exponencialmente maior."

Vale a pena analisar essa observação, pois supostamente é nela que tem base sua notável afirmação de que o mundo é mais perigoso do que em qualquer outro momento desde pelo menos 1952. Como declarou em abril: "Acredito ser um comandante numa época aparentemente menos perigosa, mas, na realidade, mais perigosa". Dados recentes sobre os conflitos armados, entretanto, pintam um quadro muito diferente e têm importantes implicações para o papel específico das Forças Armadas americanas para prevenir, atenuar ou reagir a essa violência.

O acentuado declínio da violência humana foi destacado pelo professor de Harvard Steven Pinker, citado diretamente por Dempsey. Pinker utiliza uma pesquisa aparentemente inesgotável para demonstrar que "a violência está em declínio há muito tempo e, hoje, provavelmente, vivemos na época mais pacífica da existência da nossa espécie".

Essa tendência aplica-se à violência entre indivíduos, a violência criminal, aos pogroms e à guerra.

A única forma de violência que aumentou substancialmente é a que infligimos a nós mesmos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as taxas de suicídios aumentaram 50% entre os homens e 33% entre as mulheres, de 1950 a 2000. Visto de outro ângulo: para cada pessoa que é morta por outra, duas se suicidam.

A drástica queda de violência parece contraditória, considerando que o noticiário implacavelmente promove e transforma em sensacionalismo o terrorismo e as revoltas sangrentas ao redor do mundo. Como Pinker observa: "Em geral, avaliamos a probabilidade de um evento levando em conta a facilidade com a qual lembramos de exemplos e é mais provável que cenas de carnificina sejam exibidas em nossas casas e queimadas na nossa memória do que vídeos de pessoas que morrem de velhice". Entretanto, as evidências estatísticas que Pinker resume mostram que as pessoas nunca estiveram menos em perigo de morrer pelas mãos de um semelhante do que hoje.

Dempsey está também correto quando diz que o número de conflitos armados - e particularmente os conflitos entre Estados - caminha para uma baixa histórica depois de atingir o ápice em 1992. O conflito armado é definido pelo Uppsala Conflict Data Program como uma "incompatibilidade contestada que diz respeito a governo ou território em que o uso das Forças Armadas entre duas partes, uma das quais, pelo menos, é o governo de um país, resulta em, no mínimo, 25 mortes relacionadas a uma batalha (ao ano)."

Em 1992, havia 53 conflitos armados em todo o mundo. Em 2010, esse número caiu para 31, mas aumentou para 37, em 2011. Além disso, nos últimos 67 anos, as grandes potências não combateram em guerras diretamente entre si, no "mais longo período de paz entre grandes potências dos últimos séculos", segundo o Human Security Report Project.

Quando eclodem conflitos armados, hoje, eles são muito menos sangrentos do que no passado. Em todos os conflitos entre Estados, o número de mortos despencou. O ápice foi de 596.086 mortes, em 1950, para 153.485, em 1975, e 92.485, em 2000. Em outras palavras, na década de 50 houve 65 mil mortes por conflito/ano. Agora, são menos de 2 mil.

Dado que os níveis de violência caíram praticamente em todas as categorias (com a exceção dos suicídios) e 90% de toda a violência letal não está relacionada a conflitos armados, isso levanta uma questão mais ampla. Qual é o papel do Exército americano na prevenção da violência?

O sistema de alianças liderado pelos EUA, com base em seus inigualáveis recursos militares convencionais e na capacidade confiável de armas nucleares numa segunda ofensiva, provavelmente, dissuadiu algumas guerras entre países, embora seja difícil provar a dissuasão. Mediante planos de cooperação em segurança no teatro de operações, os comandos regionais de combatentes afirmam que seu engajamento militar para militar e suas atividades no que se refere ao "poder brando" determinam a ordem regional - embora eu nunca tenha visto dados que respaldem essa afirmação.

No fim, apesar do paradoxo de Dempsey, as Forças Armadas americanas desempenham um papel mínimo na prevenção. Os EUA, porém, continuam com estrutura, recursos e predisposição para buscarem soluções militares, mas ignoram o uso da diplomacia ou do desenvolvimento para resolver vários desafios de política externa, entre eles a redução da probabilidade e da intensidade de todas as formas de violência. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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