O paradoxo do processo de paz

Apesar dos EUA, relação entre Israel e palestinos no Oriente Médio obteve progressos

Jackson Diehl, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2014 | 02h03

O "processo de paz" do Oriente Médio pode parecer uma sequência interminável de fracassos diplomáticos que deixa israelenses e palestinos atolados num conflito intrincado. Por isso, no momento em que a mais recente negociação patrocinada pelos Estados Unidos corre riscos, convém assinalar que, ao longo dos últimos 25 anos, os dois povos fizeram um progresso glacialmente lento, mas cumulativamente enorme para a coexistência. Aliás, eles já percorreram a maior parte do caminho para um acordo final.

Uma maioria resoluta de israelenses e a elite política desistiram do sonho de uma "grande Israel" e aceitaram que o Estado da Palestina será criado na Faixa de Gaza e na maior parte da Cisjordânia. Isso estava fora de questão em 1990, quando o secretário de Estado americano James Baker levantou as mãos de frustração e aconselhou as partes a "chamarem... quando estiverem falando a sério de paz".

Os palestinos abandonaram a negação do direito de existir de Israel e, em grande parte, a tática de terrorismo e violência que acabou com a diplomacia do governo Clinton. Antes assolados por atentados suicidas e confusas investidas militares, Israel, Cisjordânia e, ultimamente, até Gaza, têm sido ilhas de relativa tranquilidade numa região sangrenta. Os soldados israelenses que antes patrulhavam cada grande cidade palestina, sumiram. Foram substituídos na Cisjordânia pelas competentes forças de segurança palestinas cujos comandantes trabalham em estreita cooperação com suas contrapartes israelenses - outro desdobramento antes inconcebível.

É fato que negociadores israelenses e palestinos ainda estão divididos sobre os termos específicos de um Estado palestino, até mesmo onde será traçada a fronteira, como os antigos refugiados palestinos serão tratados e se - e como - Jerusalém será dividida. Mas, ao contrário da alegação do secretário de Estado John Kerry, o prazo de um acordo com dois Estados não está se esgotando. Aliás, os profetas do apocalipse que usavam esse mesmo argumento há 25 anos, como o demógrafo israelense Meron Benvenisti, tinham um caso mais plausível.

Na época, Israel estava expandindo agressivamente os assentamentos judeus. Agora, apenas um punhado de novas habitações está sendo adicionado em áreas próximas da fronteira de 1967 que ambos os lados sabem que se tornará parte de Israel. A despeito de todos os furores episódicos sobre os assentamentos, estudos cuidadosos mostraram que 80% de seus moradores poderiam ser absorvidos pela anexação por Israel de menos de 5% da Cisjordânia - e o premiê israelense Binyamin Netanyahu sugeriu em sua aceitação do princípio de que o território poderia ser trocado por terra que hoje faz parte de Israel.

Então, por que este progresso não está refletido na diplomacia?

Simples: quase todo desenvolvimento positivo nas relações israelense-palestinas ocorreu fora do "processo de paz". Os israelenses aceitaram a cidadania palestina porque perceberam que seu país não poderia conservar a Cisjordânia e continuar sendo judeu e democrático. Os palestinos abandonaram a violência por que ela não conseguiu acabar com a ocupação e custou muito mais caro para os palestinos do que para os israelenses. A cooperação em segurança na Cisjordânia funciona porque Israel e a Autoridade Palestina têm um interesse comum em combater extremistas islâmicos.

Os EUA ajudaram a avançar este processo não por patrocinarem conversações de paz, mas por apoiarem as decisões pragmáticas de líderes israelenses e palestinos. George W. Bush ajudou Ariel Sharon a tomar a decisão de retirada da Faixa de Gaza e de realizar o primeiro desmonte de assentamentos na Cisjordânia ao endossar o princípio de que Israel reteria blocos de assentamento próximos de sua fronteira de 1967. O treinamento e o financiamento americanos ajudaram a criar essas forças de segurança palestinas.

O governo Obama poderia ter mantido o movimento de avanço não com a realização de conversações de paz, mas amparando as decisões pragmáticas de líderes israelenses e palestinos - incluindo um governo democrático, resistente à corrupção - e impelindo Israel a repassar mais responsabilidade de segurança e remover empecilhos à economia palestina. Em vez disso, ele optou pela adoção de um processo de paz eternamente capenga e pela aposta de que poderia costurar rapidamente um acordo entre dois líderes muito reticentes: Netanyahu e Mahmoud Abbas.

A aposta não só naufragou, como reverteu em parte a mudança mais orgânica que estava em curso. Livre da pressão de Washington, Abbas destituiu seu primeiro-ministro reformista e adiou reiteradamente as eleições propostas. Ele está hoje no décimo ano do mandato de quatro anos para o qual foi eleito. A corrupção graúda em seu regime voltou e também voltaram os abusos de direitos humanos. O rancor sobre as conversações de paz fracassadas, por sua vez, está levando Israel a retirar sua cooperação com a Autoridade Palestina, o que poderá causar o colapso dela.

A moral desta história é que os EUA não podem produzir um acordo no Oriente Médio com uma investida diplomática. Eles deveriam antes investir pacientemente nas condições e instituições que poderiam tornar um acordo possível - e não convocar uma conferência até que as condições estejam maduras e os líderes prontos. Mas ao se recusarem teimosamente em reconhecer esse princípio, o presidente Obama e Kerry provavelmente adiaram a criação de um Estado palestino. Mas há chances de que a evolução para paz continue sem eles. /JACKSON DIEHL, WASHINGTON POST/Tradução de Celso Paciornik

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