AP Photo/Paul Sancya
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O partido ainda tem direito à decisão

As regras de convenção do partido, porém, apesar de todo o anacronismo, despotismo e sutilezas altamente negociáveis, são também uma linha de defesa, um obstáculo, um lugar onde um homem desajustado para o cargo pode ser rechaçado

Ross Douthat* - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

16 de março de 2016 | 07h00

Partidos políticos não são mencionados em nenhum momento na Constituição e o processo de nomeação partidária oferece poucas proteções associadas ao conceito de “um homem, um voto”. Os eleitores das primárias dos primeiros Estados americanos têm muito mais influência do que os eleitores da fase atual. 

As votações em caucuses, nos quais o comparecimento é mais escasso, são mais importantes do que em primárias, em que a afluência de eleitores é grande. As regras a serem observadas pelos delegados na convenção são bizantinas, o processo de seleção dos delegados varia de Estado para Estado e alguns deles dependem de convenções, dispensando totalmente os eleitores.

Como Donald Trump almeja a indicação republicana derrotando uma oposição ainda dividida, muito vai se falar sobre como todas essas regras, peculiaridades e complexidades são uma maneira de os que dirigem o partido roubarem a nomeação do bilionário, numa espécie de golpe do establishment contra a sua vitória – do contrário, inevitável. 

Vamos ouvir essas alegações por parte de um número crescente de vassalos e acólitos, mas elas também serão repetidas pela imprensa oficialmente neutra, que demonstrará grande preocupação quanto aos riscos da resistência do partido a um avanço de Trump e sua “visão distorcida”. Se ele chegar à convenção com o maior número de delegados e se essa rebelião for promovida pelo próprio partido, haverá uma grande rejeição.

Os americanos falam e pensam na linguagem da democracia e argumentos contra Trump encontrarão um público receptivo, incluindo líderes do partido e os próprios delegados. No entanto, eles podem contradizer a mais profunda da tradição política americana. O aspecto menos democrático das indicações é uma virtude do sistema, não uma falha, e com frequência para controlar as paixões que a democracia constantemente ameaça desencadear.

Esse controle se enfraqueceu, mas sob muitos aspectos continua em vigor – opondo-se a demagogos com demandas complexas em termos de voto, exigindo que um Coriolano em potencial tenha delegados em Guam ou Dakota do Sul, por exemplo, que se submetam à sanção dos dirigentes estaduais do partido, das reuniões comunitárias e das eleições primárias. 

Os rigores estranhos do processo nem sempre protegeram os partidos contra candidatos politicamente desastrosos, como Barry Goldwater (republicano ultraliberal que perdeu a eleição de 1964 para Lyndon Johnson) ou George McGovern (democrata pacifista que perdeu para Richard Nixon, em 1972). Ambos, porém, eram indivíduos de princípios, experientes e civicamente virtuosos, liderando facções que não estavam amadurecidas. Por isso, fracassaram, mas não eram demagogos.

Trump, porém, é de um estofo completamente diferente. É um indivíduo autoritário, sem ideologia e seus antecedentes não são como os de Goldwater ou McGovern, mas de figuras como George Wallace (governador do Alabama que, nos anos 60, prometeu manter a segregação racial a qualquer custo) e Huey Long (governador democrata da Louisiana que se opôs à indústria petroleira entre os anos 20 e 30), com um lado do personagem de ficção Buzz Windrip, do livro It Can’ t Happen Here, de Sinclair Lewis. Nenhum partido político moderno jamais indicou um candidato como esse. Nenhum partido político sério jamais deveria indicá-lo.

Como candidatos desse tipo falam de queixas que são reais, lidar com elas é algo necessariamente penoso e com frequência envolve uma terceira opção e um acerto de contas difícil posteriormente. Trump não é exceção. Negar-lhe a nomeação será um exercício odioso que pode fragilizar ou esmagar as chances do Partido Republicano na eleição geral, com um longa e difícil escalada para conseguir a unidade e a solidez.

Mas, embora seja um exercício doloroso, é também o caminho correto a seguir. Um homem tão nitidamente inadequado para o cargo não deve ser apresentado à população americana como candidato à presidência sem outro tipo de credencial que não seja a sua própria. E não há nenhum sentido ter toda uma aparelhagem de partido, todos esses presidentes e convenções estatuais, grupos de delegados, se não puderem ser mobilizados para evitar que 35% do eleitorado imponha uma nomeação de Trump, prevalecendo sobre o partido. 

O que Trump tem demonstrado é que, no atual ambiente cultural americano e diante da situação de falência do Partido Republicano, as primeiras linhas de defesa contra um demagogo não mais se sustentam. Como é ruidoso, rico e famoso, desenvolve uma campanha como se fosse um reality show. Como é persuasivo e, sim, às vezes até está certo, Trump chegou até este ponto sem muito apoio institucional, sem usar o caminho de uma organização normal, superando todos os obstáculos nos quais as pessoas esperavam que ele tropeçasse.

As regras de convenção do partido, porém, apesar de todo o anacronismo, despotismo e sutilezas altamente negociáveis, são também uma linha de defesa, um obstáculo, um lugar onde um homem desajustado para o cargo pode ser rechaçado. Assim, em Cleveland, os republicanos terão de optar: trair a grande minoria que vota em Trump ou trair seu dever para com o país. Para um partido que tem orgulho do seu patriotismo, a escolha não deveria ser difícil. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É COLUNISTA

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