Francois Mori / AP
Francois Mori / AP

O partido não conservador de Boris Johnson

Legenda foi tomada por fanáticos que querem um Brexit sem acordo e acabou abandonando seus princípios

The Economist, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 03h00

Boris Johnson é líder conservador há pouco mais de um mês e, até a semana passada, só apareceu uma vez como primeiro-ministro no Parlamento. Mas isso não o impediu de realizar o maior expurgo na história do partido, na terça-feira. Após uma rebelião das bases ter levado a uma retumbante derrota da política de Johnson para o Brexit, 21 parlamentares conservadores moderados, incluindo 7 ex-membros do gabinete e um neto de Winston Churchill, foram informados que não poderão disputar a próxima eleição pelo Partido Conservador.

É o passo mais dramático em um longo processo: a transformação do partido no governo de conservador em populista radical. A tomada do Partido Conservador por fanáticos determinados a chegar a um Brexit sem acordo levou o partido a abandonar os princípios pelos quais tem governado o Reino Unido pela maior parte do último século. Com uma eleição se aproximando, e a oposição trabalhista capturada por uma esquerda de linha dura igualmente radical, a sinistra metamorfose dos conservadores é uma terrível notícia.

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O sucateamento de mais de 40 anos de um cauteloso pró-europeísmo após o referendo de 2016 foi por si uma grande mudança. Mas sob Johnson e seu conselheiro, Dominic Cummings, que conduziu a campanha do “Saia”, o Partido Conservador não apenas se tornou pró-Brexit, mas pró-Brexit sem acordo. Johnson alega que está trabalhando por um melhor acordo de saída com a União Europeia. Mas ele não tem, por exemplo, nenhuma proposta real para resolver o impasse da Irlanda. Seu plano nada conservador parece ser vencer rapidamente uma eleição – ou forçando a saída sem acordo ou, como se comenta, alegando que foi impedido na tentativa por “inimigos do povo” no Parlamento. 

A religião do “sem acordo” destroçou outros princípios conservadores. Sajid Javid, o prudente chefe do Tesouro, distribuiu nesta semana bilhões de libras em benesses pré-eleição. Ele deu dinheiro para serviços públicos sem fazer exigências de reformas, e concentrou-se mais no gasto do dia a dia do que em investir no futuro. O poder de gasto era supostamente reservado para fazer frente a uma saída sem acordo da UE. Mas, com a convicção de que o “sem acordo” não causará grandes danos à economia, nenhuma rede de segurança foi considerada necessária. Qualquer cautela nesse sentido é vista como heresia. 

O comportamento mais anticonservador do governo Johnson tem sido sua imprudência constitucional. Ele não só suspendeu o Parlamento (tendo dito que não o faria) e limitou o tempo dos parlamentares para legislar sobre o Brexit – ele também usou táticas mais duvidosas –, como recomendou à rainha que não convalide leis nesse sentido passadas pelo Parlamento. O governo vai se ater à lei?, perguntaram a um aliado de Johnson. “Veremos o que a legislação diz”, foi a resposta.

Num país em que o cumprimento da Constituição depende de as convenções e a tradição serem seguidas, fazer tal ameaça enfraquece as regras – e abre caminho para uma próxima rodada de abusos, seja por um governo trabalhista, seja por um conservador.

A Câmara dos Lordes aprovou na sexta-feira a proposta que obriga Johnson a pedir o adiamento do Brexit. A derrota do governo, e a perda de maioria, aponta para uma eleição. Será uma disputa em que pela primeira vez, até onde a memória alcança, o Reino Unido não terá um partido de centro-direita. E, graças ao líder trabalhista de extrema esquerda Jeremy Corbyn, também não terá uma oposição robusta. Em vez disso, os dois partidos líderes estarão, de modos diferentes, empenhados em prejudicar a economia. E ambos serão uma ameaça às instituições britânicas. As terríveis consequências do Brexit continuam. / Tradução de Roberto Muniz

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