O Partido Republicano criou Trump

Ele é a culminação de décadas de cultivo irreal das expectativas dentro de uma política de ressentimento

Nicholas Kristof, The New York Times

12 de fevereiro de 2016 | 07h43

Os mercados de apostas dizem agora que o republicano com maior probabilidade de ser escolhido candidato à presidência é um homem que ridiculariza mulheres, insulta latinos, endossa crimes de guerra como tortura, condena ícones da legenda e é favorável a barrar pessoas que entram nos EUA com base em sua religião.

Ele é menos um conservador realmente convicto do que um oportunista que apoiou políticas como o seguro-saúde bancado pelo governo, o direito ao aborto e medidas mais duras para a aquisição de armas. Lindsey Graham diz que ele é “louco”, Jeb Bush afirma que ele seria pior que o presidente Obama e a revista conservadora National Review advertiu que ele é uma “ameaça ao conservadorismo americano”.

Trata-se de Donald Trump, obviamente. Ele é mais esperto do que creem seus críticos, pois compreende o humor político melhor do que os especialistas no assunto. Então, como chegamos a este estágio no qual o principal candidato republicano é detestado pelo establishment republicano?

Em parte, creio, os líderes republicanos provocaram seu surgimento. Durante décadas, eles espreitaram para abrir a caixa de Pandora, uma venenosa política de medo e ressentimento, algumas vezes fabricada com um toque de animosidade racial. Eles nunca puderam satisfazer as expectativas irreais que alimentam em seus partidários.

Talvez isso tenha começado em 1968 com a “estratégia sulista” de Nixon de recrutar segregacionistas brancos enfurecidos com o movimento por direitos civis, que foi então expandida para abranger a imigração, além de Deus, armas e homossexuais.

Obviamente, de vez em quando os democratas também realizam campanhas escandalosas e alguns republicanos menosprezam a política do ódio. Há um episódio maravilhoso ocorrido em 2008, quando John McCain concorria contra Obama, e uma mulher, durante um comício do republicano, disse que o atual presidente era um árabe em quem não se podia confiar. McCain a corrigiu e elogiou o rival: “Não, senhora. Ele é um decente homem de família, um cidadão, com o qual tenho discordâncias em questões fundamentais.”

A sordidez política e as teorias da conspiração foram amplificadas por programas de rádio, TV e sites da direita. Os democratas geralmente sentem-se em desvantagem com a ascensão de Rush Limbaugh e da Fox News mas, numa retrospectiva, Limbaugh e a Fox criaram uma câmera de eco conservadora que fere o Partido Republicano ao arrastá-lo para a direita e, às vezes, cria um extremismo míope no qual a realidade é irrelevante.

Uma pesquisa divulgada em setembro mostrou que os republicanos eram mais propensos a achar que Obama nasceu no exterior do que a pensar a mesma coisa de Ted Cruz. Esse levantamento descobriu também que os partidários de Trump acreditavam, numa proporção de quase três para um, que Obama nasceu fora do país.

O establishment republicano lucrou com as insinuações de que Obama é muçulmano, é antiamericano, seus planos para a saúde poderiam levar à criação de “painéis da morte”. Rick Perry descreveu Trump como um “câncer no conservadorismo” e disse que o movimento do magnata é uma “mistura tóxica de demagogia, mesquinhez de espírito e disparate que vai levar à perdição do Partido Republicano”. É verdade, mas foi uma mistura que muitos líderes republicanos aceitaram enquanto ela funcionou para eles.

Essa câmara de eco iludiu os crentes a ponto de, às vezes, aparentemente matá-los. Durante a pandemia de gripe de 2009-2010, comentaristas de direita como Limbaugh e Glenn Beck condenaram os chamados para que as pessoas se vacinassem contra a doença, aparentemente encarando a situação como uma nefasta conspiração de Obama.

O resultado foi que os democratas eram 50% mais propensos que os republicanos a dizer que tomariam a vacina, segundo um artigo publicado em The Journal of Health Politics, Policy and Law. Quando a pandemia matou 18 mil americanos, presumiu-se, de forma desproporcional, que eram conservadores.

A estratégia republicana também alimentou expectativas nas bases que nunca puderam ser satisfeitas. Esse é o tema do novo e inteligente livro de E.J. Dionne Jr., Why the Right Went Wrong (Por que a Direita Deu Errado), que argumenta que os líderes republicanos fizeram, repetidamente, promessas irreais – a respeito de um Estado menor, da preservação de valores antigos e sobre o fim da mudança demográfica.

“A história do conservadorismo contemporâneo americano é uma história de frustração e traição”, escreve ele, afirmando também que isso ajuda e explicar o desencanto com o establishment republicano.

Talvez a campanha de Trump desmorone, mas ele tem uma grande liderança nas pesquisas para as primárias da Carolina do Sul, marcadas para o dia 20, e já provocou enormes danos ao establishment republicano. Então, hoje, o principal candidato à presidência no partido de Lincoln é um mal informado, inexperiente, fanático e xenófobo sexista. E não é um conservador de coração, apenas um alcoviteiro oportunista.

Trump é a consequência da irresponsável politicagem dos líderes republicanos, a culminação de décadas de cultivo irreal das expectativas dentro de uma política de ressentimento. É bom ver a liderança republicana levantando-se contra ele, mas a situação lembra o ditado chinês: quando você está montando um tigre, a parte difícil é descer. / TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

*NICHOLAS KRISTOF É COLUNISTA

 

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