O passado ronda Kiev

Atual revolta na Ucrânia traz ecos da revolta nacionalista em Kiev contra o império da URSS; ideia de que Moscou manda no país persiste

WILLIAM, ENGLUND, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2014 | 02h06

Na luz cinzenta da neve caindo, centenas de manifestantes deixaram seu acampamento na Praça da Independência caminhando lentamente e, depois de uma breve parada na frente do Ministério do Interior, dirigiram-se para a sede do Serviço de Segurança da Ucrânia. Ali, exigiram a libertação de um dos mais populares organizadores dos protestos, Ihor Lutsenko, arrebatado de um hospital 12 horas antes, juntamente com outro indivíduo, Yuri Verbytski.

Isso o ocorreu nona semana passada e, naquele momento, ninguém sabia o que sucedera com os dois homens. Mas o grupo que gritava na calçada tinha certeza de que a polícia estava envolvida no desaparecimento deles.

Há 47 anos, no auge do poder soviético, um grupo realizou uma idêntica manifestação no mesmo local - salvo que, em 1967, o imponente edifício cinza abrigava não o serviço de segurança ucraniano, mas a KGB. Neste intervalo entre os dois acontecimentos, um fator comum sempre persistiu. Hoje, 22 anos após a independência da Ucrânia, muita gente acha que Moscou continua a controlar o país.

Na década de 60, jovens artistas e escritores ucranianos começaram a se reunir em clubes informais para tentar entender o que significava ser ucraniano dentro da URSS. O nacionalismo ucraniano foi estigmatizado como colaboracionismo nazista na 2.ª Guerra Mundial e esses intelectuais tentavam desenvolver uma ideia positiva do orgulho ucraniano.

Em 22 de maio de 1967, centenas de pessoas se reuniram para homenagear o poeta Taras Shevchenko, cujos restos mortais foram transferidos de São Petersburgo para a Ucrânia e ali enterrados, no mesmo dia em que nasceu em 1861. Shevchenko, que sofrera sob o governo do czar, era um poeta respeitado pelos soviéticos, mas aquela reunião tinha ido longe demais. E assim a KGB interveio.

Ocorreram confrontos, escritores e artistas foram detidos. Então uma multidão se conglomerou diante da sede da KGB e exigiu a libertação deles. Moscou, na era soviética, sempre teve muito receio do patriotismo ucraniano e tentou aniquilá-lo. Mas, diante daquela manifestação pública espontânea, as autoridades recuaram e libertaram os intelectuais. Entre eles estavam algumas figuras que abriram o caminho para a independência do país 24 anos depois.

Em 2014 o resultado não foi tão brando. Desta vez, as autoridades não estão representando um poder totalitário, monolítico, mas um governo predatório e corrupto do presidente Viktor Yanukovich. Ao rechaçar um acordo com a Europa, em novembro, e pedir ajuda à Rússia, Yanukovich enfureceu milhões de ucranianos cujas lembranças do domínio de Moscou não são nada agradáveis. "Isso é inimaginável", afirmou Irina Bilokin, que participou dos protestos da semana passada para a libertação dos dois homens desaparecidos. "Parece que Yanukovich está fora de si. Espero que eles estejam vivos pelo menos".

No dia seguinte, Lutsenko reapareceu, perambulando por uma floresta a 15 km de Kiev. Perdera um dente e tinha um olho roxo. Mal conseguia andar porque fora severamente espancado na sola dos pés.

Lutsenko explicou então numa entrevista gravada pelos amigos, que Verbytski teve um olho gravemente ferido durante um confronto com a polícia e ele então o levou ao hospital. Lá, 10 homens de casaco preto entraram abruptamente, agarraram os dois e os levaram. Lusenko acha que os captores têm ligação com a polícia, que nega qualquer envolvimento.

Depois de horas de espancamentos, os homens levaram Lutsenko para a floresta, colocaram um saco em sua cabeça, obrigaram a que ele caminhasse de joelhos pela neve e mandaram que rezasse. E partiram. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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