Lynsey Addario/The New York Times
Lynsey Addario/The New York Times

O patriota que acreditava na paz

Quando o conheci, pareceu-me óbvio que tivesse uma agenda política, mas levei algum tempo para entender que isso não era comum

Yossi Beilin* / The Washington Post, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2016 | 05h00

Shimon Peres era um otimista. Não dos que acreditam que no fim tudo vai dar certo, mas dos que acham que se você fizer tudo certo poderá mudar a situação para melhor. Não um sonhador, um visionário, mas um político astuto que sabia o que queria e como chegar lá.

Quando o conheci, pareceu-me óbvio que tivesse uma agenda política, mas levei algum tempo para entender que isso não era comum. Hoje, posso testemunhar: a maioria dos políticos chega ao cargo simplesmente para estar lá. Quando alguém pergunta por que fazem política, respondem com generalidades do tipo “para melhorar o país”.

Peres, no entanto, estava na política com um objetivo: garantir que Israel estivesse seguro, criando para isso os melhores meios de defesa e ao mesmo tempo promovendo um relacionamento pacífico com os vizinhos.

Quando jovem, Peres era considerado um tecnocrata. Pertencia à geração nascida nos anos 20 que havia se cansado da ideologia socialista da geração de David Ben-Gurion. A geração de Peres se orgulhava do pragmatismo. Quando ficou bem mais velho, passou a ser considerado um sonhador, até mesmo um ingênuo.

Nos anos 60, não estava preparado para usar o rótulo “social-democracia” na plataforma do Partido Trabalhista israelense, mas em 1978 tornou-se vice-presidente da Internacional Socialista. Nos anos 70, foi um obstinado apoiador dos assentamentos nos territórios ocupados. Mais tarde, como líder do Partido Trabalhista e da oposição, passou a criticar os assentamentos. Muitos, então, o viram como traidor. Yigal Amir, o assassino do premiê Yitzhak Rabin, declarou que seu alvo seguinte seria Peres.

Nos anos 90, quando contei a Peres – eu era seu vice no Ministério das Relações Exteriores – meus esforços para negociar um acordo provisório com a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) em Oslo, ele poderia facilmente ter-me dito que isso era operação desonesta, feita sem sua autorização. No entanto, abraçou a ideia e foi pedir a Rabin sinal verde para o projeto, que acreditou ser de interesse nacional de Israel.

Sua visão do país era diferente da minha. Nasci em Israel algumas semanas depois de sua criação; ele estava lá desde que a nação estava no berço. Para mim, as conquistas militares e econômicas de meu país, bem como seu sucesso em absorver duas vezes mais imigrantes judeus que sua população original em 1948, eram um fato natural; para ele, tudo isso era uma espécie de milagre. Se meu amor por Israel era o de um filho, o dele era o de um pai que admira tudo o que o filhinho faz – incluindo coisas não objetivamente dignas de admiração.

Tínhamos nossas diferenças. Para mim, era difícil entender por que ele achou que assentamentos ilegais nos territórios ocupados poderiam contribuir para nossa segurança. Fui totalmente contra o Partido Trabalhista unir-se ao governo de Ariel Sharon – o pai dos assentamentos. Mas eu sabia que mesmo essa amarga colisão não era, para ele, coisa pessoal. Peres acreditava profundamente que se juntar ao governo era o único modo de salvar Israel do tipo de governo de ultradireita que temos hoje.

Peres era mais sábio que a maioria das pessoas que conheço. Tinha um grande senso de humor, até sobre si mesmo. Sua autoconfiança nunca beirava a presunção e lhe permitia tomar decisões ousadas, como o plano econômico de 1985, que salvou Israel da inflação descontrolada, ou sair do Líbano, já que não conseguíamos encontrar um parceiro libanês para um acordo. O neto de Ben-Gurion uma vez me disse que, para ele, o avô foi o mais importante líder israelense, mas Peres foi o melhor premiê, porque era, ao mesmo tempo, um visionário e um executivo que sabia atingir seus objetivos. Estava certo.

Peres teve uma vida cheia de conquistas, apesar das muitas dificuldades que enfrentou. Pouco antes de ser presidente, visitou Nova York. Uma noite, ao entrar num teatro da Broadway com amigos, foi aplaudido de pé. No início, não entendeu bem o que estava acontecendo – achou que a plateia estivesse aplaudindo os atores, embora a peça ainda não tivesse começado. Então, viu que os aplausos eram para ele. Shimon Peres, o “Senhor Segurança”, o patriota israelense que acreditava na paz, sem dúvida mereceu aquilo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*FOI MEMBRO DO GABINETE ISRAELENSE SOB OS PRIMEIROS-MINISTROS YITZHAK RABIN, SHIMON PERES E EHUD BARAK

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