O PC chinês contra os 'americanos imorais'

Com esforços ridículos, ideólogos de Pequim atacam a imagem dos EUA e tentam alterar a percepção positiva que o país tem na China

CALUM, MACLEOD, USA TODAY, É CORRESPONDENTE EM PEQUIM, CALUM, MACLEOD, USA TODAY, É CORRESPONDENTE EM PEQUIM, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2013 | 02h03

É melhor o líder chinês Xi Jinping tomar cuidado com "americanos imorais e desonestos" quando viajar no fim desta semana à Califórnia para uma cúpula com o presidente Barack Obama. E é melhor ele também evitar a United Airlines. O conselho foi publicado para todos os chineses e saiu no Diário do Povo, jornal fiel porta-voz do Partido Comunista.

A coluna "Americanos Imorais e Desonestos", assim intitulada no jornal, pretendia corrigir a visão positiva que os chineses têm dos americanos. "A maioria dos chineses acredita que os americanos são honestos, confiáveis e corretos", explica a introdução da coluna. "Essas descrições são um pouco enganosas", diz o texto.

A série começou em março, mas se tornou viral no último fim de semana, quando muitas outras mídias chinesas exibiram a crítica à United Airlines. O artigo citava um passageiro chinês que se sentiu agredido e insultado por ter tido de descer de um avião em razão de um overbooking.

Os viajantes americanos, que há muito sofrem com o problema, poderiam até simpatizar com ele pelo tratamento que lhe foi dado. No entanto, o Diário do Povo preferiu transformar o episódio em mais uma evidência da "desonestidade americana". "A melhor solução seria se os passageiros chineses evitassem a United", diz o texto.

Em microblogs, contudo, os chineses criticaram as tentativas ridículas dos meios oficiais de macular a imagem dos EUA, que continua sendo objeto de fascínio na China.

Os chineses compram vorazmente produtos americanos e preferem os filmes e séries de TV de Hollywood ao entretenimento pomposo e sempre censurado pelo Estado da China.

Para contrabalançar esse "poder brando" dos EUA, Pequim investe na expansão de sua mídia estatal nos EUA e em outros mercados. A coluna no Diário do Povo é assinada por seu staff de Nova York, mas a repercussão negativa, segundo o Global Post, outro jornal oficial alinhado com o PC, mostra a dificuldade de convencer o público chinês, que se tornou cético sobre seu próprio governo.

Ante o escárnio público, o jornal mudou o título em chinês da coluna para "Os americanos que você não conhece". Pedindo uma "observação mais objetiva" tanto pela China como pelos EUA, o Global Times diz que o incidente oferece uma lição que o Diário do Povo pode tirar de seu esforço desajeitado para manchar a imagem dos americanos. Entretanto, os EUA também precisam parar com seu "velho truque" de pintar a China com uma imagem desfavorável, segundo o jornal em sua edição de segunda-feira.

Na semana passada, Tom Donilon, consultor de Segurança Nacional de Obama, tentou melhorar as relações complicadas entre China e EUA, agravadas por problemas como ciberataques e a atitude ante a Coreia do Norte. Ele reuniu-se com autoridades chinesas para preparar a cúpula dos dois líderes.

No encontro, de acordo com o conselheiro de Estado da China, Yang Jiechi, citado pela agência Xinhua, Pequim espera melhorar o diálogo, as trocas e a cooperação com os americanos, e ainda tratar de questões sensíveis para promover o desenvolvimento dos laços bilaterais. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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