Thomas Peter/REUTERS
Thomas Peter/REUTERS

Origens do coronavírus: o papel da mídia na rejeição da teoria do laboratório de Wuhan

Mesmo agora temos uma percepção clara de que as mentes independentes dificilmente estão funcionando

Bret Stephens*, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 05h00

Se for verdade que a pandemia de covid-19 foi causada pelo vazamento do vírus de um laboratório em Wuhan, na China, este será um dos maiores escândalos científicos da história: uma pesquisa perigosa, possivelmente envolvendo técnicas eticamente duvidosas que tornaram o vírus ainda mais perigoso, realizada num laboratório com poucas salvaguardas e acobertada por um regime mais interessado em propaganda do que na vida humana, catastrófica para o mundo inteiro.

Mas este possível escândalo, que ainda não está comprovado, põe sombra em um escândalo real, que precisa ser assimilado.

Quero me referir à longa recusa por parte de muitos guardiões da mídia (tanto a social como a tradicional) a levar a sério a teoria do vazamento. As razões para isto - partidarismos de classe e reportagens irrefletidas,  e os métodos usados - censura e difamação - nos lembram que às vezes os inimigos mais destrutivos da ciência podem ser aqueles que afirmam falar em nome dela.

Retornemos a fevereiro do ano passado, quando pessoas como o senador Tom Cotton começaram a apontar para uma série de fatos perturbadores: a curiosa coincidência de uma pandemia ter origem na mesma cidade onde um laboratório chinês conduzia experimentos de ponta sobre vírus de morcegos; a inquietante notícia de que alguns dos primeiros pacientes de covid-19 não tiveram contato com os mercados de alimentos onde a pandemia supostamente teria se originado; o fato de o governo chinês ter mentido e se esquivado durante a crise. Pense o que quiser do republicano de Arkansas, mas eram observações razoáveis que justificavam uma investigação imparcial.

Qual foi a reação comum dos círculos liberais de elite? Um repórter do The Washington Post qualificou a explanação do senador de “teoria marginal”,  que foi repetidamente contestada por especialistas. O The Atlantic Council acusou Cotton de incitar uma “infodemia”,  “promovendo uma afirmação desacreditada de que o novo coronavírus teria sido criado num laboratório em Wuhan”. Segundo um jornalista do Vox, tratava-se de “uma teoria de conspiração perigosa”, proposta por conservadores “conhecidos por regularmente lançarem disparates (e criticarem a China)”.

Há muitos outros exemplos desse tipo. Mas no geral a narrativa da mídia era clara. De um lado estavam especialistas como os da Organização Mundial da Saúde: informados sobre o assunto, incorruptíveis, competentes, nobres. De outro lado estavam os “yahoos” de direita insistindo numa fantasia risível com insinuações xenofóbicas para desviar a atenção da má condução da crise pelo governo Trump.

Era ofensivo achar que o vírus podia ter escapado do Instituto de Wuhan? Não se você ouvisse o biólogo evolucionário Bret Weinstein, uma explicação lúcida, cientificamente rica, da hipótese de vazamento, que ele ofereceu há quase um ano no podcast não tradicional de Joe Rogan.

Foi inteligente da parte dos jornalistas científicos aceitarem a autoridade de uma carta de fevereiro de 2020, assinada por 27 cientistas e publicada na revista The Lancet, insistindo febrilmente na “origem natural” da covid? Não se esses jornalistas tivessem comprovado os vínculos entre o autor principal da carta e o laboratório de Wuhan (um fato, como o jornalista Nicholas Wade sublinha num ensaio referencial no The Bulletin of the Atomic Scientists, que é de conhecimento público há meses).

Foi sensato supor que a OMS, que tem servido de porta-voz da propaganda do regime chinês, tinha autoridade quanto ao que se considerava como “desinformação” sobre a covid no Facebook, que em fevereiro baniu a tese do vazamento da sua plataforma? Não se o objetivo de companhias como Facebook é unir o mundo, em oposição à lavagem de desinformação do governo chinês enquanto modela seus métodos não liberais.

O Facebook fez uma reformulação na semana passada. Organizações de notícias estão silenciosamente corrigindo (ou editando às ocultas) notícias depreciativas do ano passado, às vezes usando o artifício de novas informações sobre funcionários do laboratório de Wuhan infectados no outono de 2019 com uma doença como a covid-19. E a comunidade de saúde pública vem fazendo um novo exame da sua história sobre a origem da covid.

Mas mesmo agora temos uma percepção clara de que as mentes independentes dificilmente estão funcionando. Se a teoria de um vazamento do vírus de um laboratório finalmente tem agora a atenção que sempre mereceu é principalmente porque Joe Biden autorizou uma investigação e Anthony Fauci admitiu ter dúvidas quanto à alegação da origem natural do vírus. Em outras palavras, o presidente certo e o especialista em saúde pública certo privilegiaram uma determinada linha de investigação.

Mas a teoria do vazamento, no final sendo correta ou não, sempre foi crível. Mesmo que Tom Cotton acreditasse nela. Mesmo que o “consenso” científico a contestasse. Mesmo que os fanáticos - que raramente precisam de um pretexto - tirassem conclusões tendenciosas dela.

O bom jornalismo, como a boa ciência, deve buscar evidências, não narrativas. Deve prestar atenção tanto aos inoportunos inteligentes como às autoridades eminentes. E jamais tratar discordâncias honestas como heresia moral.

Qualquer pessoa que pergunte porque tantas pessoas se tornaram tão hostis aos pronunciamentos das autoridades de saúde pública e jornalistas científicos deve tirar a conclusão apropriada desta história. Quando faz uma preleção para o público sobre os perigos da desinformação, é melhor que você também não dissemine mentiras. /Tradução de Terezinha Martino

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