O pequeno problema cubano

A América Latina tem um pequeno problema: Cuba. Como uma ilha do tamanho do Estado de Pernambuco - com 110 mil quilômetros quadrados - e com um PIB menor do que o do Sudão - US$ 63 bilhões - consegue sugar tanto oxigênio no continente?

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h01

Assunto sério não falta. Cartéis criminosos aterrorizam o istmo centro-americano e a corrupção corrói a fibra ética das novas democracias. A pane no sistema educacional atola a inovação enquanto a notória brecha entre ricos e pobres, embora menor, ainda escandaliza.

No entanto, quando os chefes de Estado da Américas se reúnem, como fizeram há duas semanas na Colômbia, na 6ª Cúpula das Américas, Cuba domina as discussões.

Foi a exclusão do regime castrista que quase sabotou a cúpula de Cartagena e a inconformidade geral sobre a sua ausência dominou boa parte do horário nobre do encontro. A pequena ilha já havia enfeitiçado a presidente Dilma Rousseff, que, em fevereiro, visitou Havana. Ao lado do presidente Raúl Castro, mas longe das manifestações contra os abusos de seu regime, Dilma esbravejou contra a violação dos direitos humanos dos Estados Unidos.

Da mesma forma, o Senado brasileiro, por meio de sua Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, não hesitou em endossar o fim imediato do embargo "desumano" dos EUA à economia cubana. Em seguida, os senadores descartaram a proposta de apelar ao regime caribenho para que soltassem os presos políticos ou que autorizasse a viagem da blogueira dissidente Yoani Sánchez ao Brasil.

Feudo cinquentenário. Essa indelicadeza poderia ser interpretada como "uma intromissão em assuntos internos", nas palavras do senador Delcídio Amaral, ou quem sabe "dificultar um diálogo mais fluido com aquele país," como quis Fernando Collor de Mello.

Não se sabe a qual o senador se referia, pois como desabafou o petista Eduardo Suplicy, voto vencido no requerimento sobre direitos humanos: "O embaixador de Cuba não responde mais a meus telefonemas."

O que Havana tem? É o feudo cinquentenário de uma ditadura versão 1.0. É a exótica exceção em um hemisfério pautado, cada vez mais, pelo compromisso democrático.

Mesmo que sonhem com o castrismo, Hugo Chávez e os companheiros da aliança bolivariana se resignam em tocar a autocracia vira-lata, manipulando eleições que não podem evitar e abafando a crítica que não conseguem calar.

Capitalismo. No entanto, a ilha fascina, mesmo hoje quando seu alto comando apressa-se em abraçar a livre iniciativa, o tabu que virou salva-vidas para um comunismo em ruínas.

Parte do charme de Cuba, claro, vem de seu papel simbólico. A formiga socialista que dobrou a cigarra gringa é um clássico do imaginário latino-americano. Só essa proeza lhe vale o indulto de políticos que há muito tempo trocaram as honrarias da ideologia socialista pelos honorários do capitalismo democrático.

Os americanos, contudo, bem que ajudaram na mitificação. Atentaram contra Fidel com uma invasão maltrapilha, comprimidos envenenados e um charuto-bomba. Nada funcionou e Washington teve de se contentar com o embargo econômico, que tampouco deu certo, mas criou um mártir vivo.

Há boas razões para manter Cuba à distância. Em 2001, todas as nações das Américas firmaram a Carta Interamericana da Democracia, um compromisso para promover e defender a democracia na região. Cuba, evidentemente, não se encaixa no novo manequim e segue prendendo e silenciando quem pense de forma diferente, não se importando com a censura dos seus pares.

Reféns da ilha. E esse é o problema. A exclusão forçada de Cuba se converteu em blindagem. Assim, a insistência em isolar Havana tem efeito contrário. No castigo, o regime comunista octogenário e decadente colhe simpatia barata e sobrevida política em uma região onde não tem mais relevância nenhuma, a não ser na discórdia das cúpulas regionais.

Agora, diversos países latino-americanos afirmam que o encontro de Cartagena será a última Cúpula das Américas sem a participação de Havana. No entanto, com a engessada política americana, pode acabar sendo a última cúpula. Se ninguém ceder, continuaremos reféns de uma pequena ilha no Caribe.

 

*Mac Margolis é colunista do Estado, correspondente da revista 'Newsweek' e edita o site www.brazilinfocus.com

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