O pequeno tem vantagem sobre o gigante

A lógica americana, de grande potência, opera no tempo imediato; os iranianos estão em seu terreno e pensam no longo prazo

AARON DAVID MILLER , &MITCHELL HOCHBERG, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2013 | 02h05

Ninguém sabe como terminará o dilema da bomba nuclear iraniana - um bom acordo, um mau acordo, nenhum acordo, um ataque militar americano ou israelense - ou nada disso? Mas, em meio a todas as incertezas, pelo menos uma coisa parece certa: os mulás estão jogando xadrez em três dimensões, enquanto os EUA jogam dama. Ser grande nem sempre significa ser mais esperto e eficiente - e pequeno não é sinônimo de fraco.

O Oriente Médio está coberto do que sobrou das grandes potências que acreditavam, equivocadamente, que poderiam impor sua vontade sobre pequenas tribos. Convencer e obrigar nações a não fazer algo que elas julgam vital não é fácil.

Grandes potências como os EUA, que têm muitas coisas para fazer, se deixam distrair e se cansam facilmente. As menores, como o Irã, que vivem num ambiente perigoso, não podem se dar o luxo de fazer o mesmo. Só podem se concentrar intensamente em poucas coisas: a segurança física, a sobrevivência do regime, a preservação da identidade religiosa e nacional, lamentos, feridas e traumas históricos - e o temor das potências. Preferem adotar a manipulação e manobrar ao redor dos grandes poderes, pois conhecem o lugar em que estão: os becos, as armadilhas e os vícios de sua região.

Nos últimos anos, os EUA chegaram muito perto do Irã, mas com pouco conhecimento sobre o meio em que vive o país. Com o poderio militar americano e sua superioridade tecnológica, o país pode derrubar líderes e enfraquecer grupos hostis aos seus interesses. As populações desses países, porém, podem fazer Washington pagar muito caro por isso. Em geral, dez anos depois das retiradas americanas, com certeza, todos os esquemas e sonhos dos EUA não terão mudado significativamente. Vinte anos depois, caso seus habitantes lembrem-se que os americanos estiveram lá, não será com carinho.

O Irã tem sido particularmente hábil em capitalizar os erros dos EUA. As invasões do Iraque e do Afeganistão enfraqueceram o Taleban e eliminaram Saddam Hussein, dois adversários do Irã, e fortaleceram a posição do país persa. Teerã também manobrou com grande astúcia e jogou habilmente em desdobramentos regionais como a crise síria. Apoiou o presidente Bashar Assad, explorou a ligação do Hezbollah com seu governo e, com a ajuda dos russos, preservou a sobrevivência do regime. O acordo russo-americano sobre as armas químicas também promoveu o objetivo iraniano, que era dar legitimidade ao líder sírio, e levou os mulás a se indagarem se os EUA estariam realmente dispostos a usar a força militar no Oriente Médio.

Finalmente, graças ao seu status menor e à sua maior agilidade, o Irã resistiu às sanções, ao isolamento político, à guerra cibernética e aos esforços de três sucessivos governos americanos para impedi-lo de adquirir a bomba. Na realidade, em 2013, Teerã está mais perto do que nunca de atingir a capacidade de construí-la num prazo relativamente breve. E quem sabe? É possível que o seu governo esteja até mais perto de cruzar esse limiar do que americanos e israelenses estimam.

Os presidentes e os negociadores dos EUA medem suas vidas em períodos de quatro e oito anos. Ao contrário, o Irã aposta no longo prazo, no jogo de gerações. Evidentemente, Teerã quer que as sanções sejam abrandadas, mas pode esperar se não conseguir o que quer.

Além do tempo limitado do seu segundo mandato, Obama defronta-se com uma opção que não gostaria: a militar. O Irã não quer um ataque israelense e muito menos americano. Os dados estão lançados. Mas Teerã, com todas as suas vantagens, corre riscos. Na realidade, a mensagem do Irã poderia ser: venham nos pegar e bem-vindos ao pedaço. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

SÃO PESQUISADORES DO WOODROW

WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS

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