O perdedor foi o projeto italiano de centro-esquerda

Análise: Gianni Riotta / Foreign Policy

O Estado de S.Paulo

05 de março de 2013 | 02h03

Há 90 anos, o poeta italiano Eugenio Mondale, que depois viria a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, escreveu estes versos mágicos e amargos: "Isso apenas podemos hoje lhes dizer. O que não somos, o que não queremos." Na época, isso foi lido como uma declaração contra as marés crescentes do fascismo. Hoje, expressa o ânimo da maioria dos italianos presos no atoleiro pós-eleitoral. Não há uma maioria sólida no Senado nem na Câmara , onde o Partido Democrático, de centro-esquerda, tem uma pequena maioria em assentos (mas não o controle) - e não há nenhuma coalizão política viável para se formar um governo, O ex-premiê Silvio Berlusconi sobreviveu a sua sexta campanha nacional desde 1994: ele perdeu milhões de votos desde a sua última participação, mas suas promessas de cortar impostos empolgaram uma vez mais a classe média. O líder do Partido Democrático (PD), Pierluigi Bersani também não conseguiu entender os dados brutos na internet e sua campanha desandou no sul. Enquanto isso, amargurado com o desemprego, a corrupção e o crime organizado, o sul não ligou para o PD e deu ouvido as sereias evocadas por Beppe Grillo, o comediante fundador do Movimento 5 Estrelas.

Grillo brilhou, ganhando 25% dos votos, o que acabou com os sonhos tecnocráticos do premiê Mario Monti. Os eleitores progressistas estavam irados: eles não estavam preocupados com mercados de bônus, o consenso de Davos, ou mesmo, aliás, o saber dos especialistas.

Portanto, neste momento em que os partidos políticos planejam e barganham, quem realmente ganhou e quem perdeu? E o que vem em seguida? O verdadeiro vencedor foi o medo - o medo de globalização, mercados livres, inovação, Europa integrada e alta tecnologia. Tanto Berlusconi quanto Grillo acusaram a chanceler alemã, Angela Merkel, por sua política de austeridade.

O perdedor (além do senso comum) foi o projeto de centro-esquerda da Itália como um país moderno e inovador. Esta nunca foi uma plataforma partidária forte numa eleição dominada pela política da rejeição: Monti teve de fazer acordo com seus aliados espinhosos, enquanto Bersani teve de refrear sua ala socialista. O ruído branco político acabou por confundir os eleitores. Eles se aferraram a Berlusconi ou apostaram em Grillo.

Agora caberá ao presidente Giorgio Napolitano escolher um premiê e enviá-lo a um perigoso safari para garantir uma maioria e nomear um gabinete.

Bersani pode formar um gabinete de minoria e implorar a Grillo que o apoie. Essa seria a "fórmula siciliana", na qual o governador de centro-esquerda da ilha, Rosario Crocetta, agora precisa negociar cada lei com os linhas duras do M5S.

Bersani não tem muitas opções. Ele poderia se aproximar de seu arqui-inimigo Berlusconi e formar uma grande coalizão. Mas a campanha entre os dois foi muito dura e fazê-lo cederia a oposição a Grillo que prosperaria nessa posição. Berlusconi provavelmente exigirá que Bersani ceda nos cortes de impostos, medida que muitos veriam como um retrocesso para os velhos modos acomodatícios da politica italiana.

A opção final de Napolitano seria abrir os procedimentos para convocar novas eleições, que seriam realizadas após seu sucessor ser eleito. Para Grillo, isso seria um trampolim magnífico - ele concorreria como o independente solitário contra o establishment inerte. Portanto, estamos num atoleiro. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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