O perigo cresce em Cabul

Para continuar no poder até 2014, presidente afegão precisa dar prioridade ao estado de direito

Candance Rondeaux, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2011 | 00h00

O ataque ao Hotel Intercontinental, em Cabul, há 12 dias, é um lembrete oportuno de quão precária a situação continua dez anos após as primeiras forças dos EUA terem entrado no Afeganistão. O intenso ataque ao hotel ressaltou o receio crescente em todo o país de que é só uma questão de tempo até que o Afeganistão descambe mais uma vez em uma guerra civil.

Com o anúncio da Casa Branca do plano para retirar 33 mil soldados dos EUA até setembro de 2012, a longa guerra parece estar entrando em seus últimos anos, pelo menos no que concerne aos EUA. A maioria dos afegãos compreende, no entanto, que o conflito continuará muito tempo depois da retirada e os planos de transição para controle completo afegão da segurança em 2014 são pouco mais do que uma conveniente fantasia política.

Os insurgentes têm demonstrado determinação impressionante para expor as fraquezas do governo afegão. Desde março, pelo menos 50 pessoas foram mortas e dezenas feridas em ataques nas imediações de quatro das sete áreas da transição de segurança prevista pelo presidente Hamid Karzai. O ataque ao Intercontinental foi um golpe estratégico. Ocorreu horas antes de uma reunião entre os governadores provinciais sobre os planos de transição.

A investigação do ataque contra o hotel ainda está em curso, mas dado o padrão dos ataques na capital não é improvável que os militantes armados tenham sido capazes de deslocar suas armas através de postos de segurança molhando algumas mãos ao longo do caminho.

Os dirigentes da Otan podem falar o que quiserem sobre os sinais de progresso. Apenas algumas semanas antes da transição de Cabul ao controle afegão, o governo Karzai nunca pareceu tão vulnerável. O ataque no coração da capital afegã levanta a questão: agora realmente seria o momento certo para conduzir as negociações com o Taleban?

Ninguém está mais preocupado em encontrar uma resposta a essa pergunta do que os afegãos comuns. Embora o desejo de um fim para o conflito seja verdadeiro, o medo do retorno do Taleban ao poder é igualmente real e bastante difundido. Há a percepção generalizada de que Karzai, em sua tentativa desesperada de manter o poder, estaria pronto para se vender às forças militantes pró-jihadistas. Por sua vez, muitos começaram a questionar, corretamente, a lógica por trás de se negociar com uma insurgência cuja intenção, aparentemente, é matar civis impunemente e reverter o pouco progresso conquistado no país.

Além disso, como pode alguém esperar que o Taleban atenda às exigências do governo de respeitar a Constituição afegã, quando o próprio presidente não demonstra nenhum respeito pelo estado de direito?

As forças por trás da mais recente série de acontecimentos no Afeganistão são impulsionadas tanto pelos ataques persistentes de Karzai contra a santidade das instituições democráticas quanto pelo apetite insaciável entre aqueles em seu círculo próximo por lucros de uma economia totalmente construída com base na guerra. Mesmo enquanto a preparação para a transição da segurança tem início, os sistemas político e econômico parecem estar à beira da implosão. A decisão tomada recentemente pelo Tribunal Eleitoral Especial de remover 62 dos 249 membros efetivos do Parlamento, após prolongada controvérsia sobre a fraude nas eleições parlamentares de setembro, provocou uma crise constitucional de proporções épicas. Todos em Cabul preparam-se para o colapso econômico. Ainda assim, os bilhões de dólares em assistência internacional e as garantias vazias de Washington e Bruxelas não param de chegar.

A menos de 30 quilômetros da capital, a presença do governo permanece relativamente baixa nas cada vez mais inseguras províncias perto da fronteira de Cabul, onde vive quase um quinto da população do país. Os combatentes das redes Taleban, Hizb-e Islami e Haqqani conquistaram dinâmica sólida no coração do Afeganistão, instalando governos paralelos e realizando agressivas campanhas de assassinato, enquanto cooptam funcionários dos governos provinciais que também buscam sua parcela da economia de guerra. Além dos salários normais e bônus que recebem dos líderes insurgentes com base na fronteira com o Paquistão, os grupos rebeldes do Taleban e outros têm lucrado muito com a corrupção nas agências de segurança afegãs. Isso permitiu à insurgência infiltrar-se em unidades inteiras da polícia e do Exército e extrair milhões de dólares em pagamentos de proteção de empresas de segurança afegãs e internacionais responsáveis pela segurança dos comboios de suprimentos da Otan.

Inverter os incentivos perversos para prolongar o conflito exige mais do que a realização de conferências e a emissão de estudos de estratégia. A transição tende a ficar mais complicada, a menos que haja mais equilíbrio entre tomar ação militar contra a insurgência e confrontar as causas fundamentais da insurgência em Cabul.

Corrupção, ilegalidade e governo predatório são os principais agentes do conflito. Se Karzai quiser que seu governo sobreviva depois de 2014, seria uma boa ideia gastar menos tempo fazendo acordos e mais tempo priorizando o estado de direito.

É ANALISTA SÊNIOR PARA O AFEGANISTÃO DO INTERNATIONAL CRISIS GROUP

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