O perigo da inação

O atrevimento russo e a apatia americana mudaram o curso da guerra para pior

The Economist

21 de fevereiro de 2016 | 03h00

Numa guerra tão atroz como a da Síria, sobressaem várias lições pouco animadoras: quanto mais tempo duram as hostilidades, mais sangrento se torna o conflito, mais países são tragados pela voragem e menos promissoras são as opções para pôr fim ao derramamento de sangue ou pelo menos interrompê-lo temporariamente. Mas a maior lição talvez seja a de que ausência dos Estados Unidos cria um vácuo que é ocupado por forças perigosas: jihadistas, milícias xiitas e, agora, uma Rússia cada vez mais abusada.

A Síria é uma reunião de guerras dentro de uma guerra: um levante contra uma ditadura; um conflito sectário entre sunitas e alauítas (e seus aliados xiitas); uma luta intestina entre árabes sunitas; uma ação militar de curdos em busca de uma pátria; um embate regional, travado por meio de terceiros, opondo Arábia Saudita e Turquia ao Irã; e uma disputa geopolítica entre um EUA receoso e uma Rússia ressurgente.

Em meio à carnificina, Vladimir Putin colocou-se ao lado de Bashar Assad e do eixo xiita. Seu poderio aéreo modificou radicalmente o campo de batalha. As forças pró-Assad conseguiram cortar um corredor vital, por onde chegavam suprimentos provenientes da Turquia, destinados ao reabastecimento de áreas de Alepo controladas por rebeldes. Assad está prestes a fechar novamente o cerco em torno daquela que já foi a maior cidade síria. Os refugiados voltaram a pressionar a fronteira com a Turquia, mas muitos continuarão por lá. 

Na dança diplomática envolvendo acordos de cessar-fogo, ajuda humanitária e uma eventual solução política, quem dá as cartas agora é a Rússia, mais ou menos como fizeram os EUA após intervir nas guerras dos Bálcãs dos anos 90. A estratégia de Barack Obama na Síria – seu desejo de que Assad saia de cena sem que os EUA tenham de mobilizar os recursos necessários para fazê-lo ir embora – fracassou. Assad, ao que parece, ainda estará por lá quando Obama deixar a Casa Branca. Mas a guerra não está perto do fim. Na verdade, a situação só piorou.

A Turquia afunda cada vez mais no torvelinho. Unidades de artilharia do Exército turco têm lançado bombardeios sistemáticos contra os curdos sírios. Ancara os põe no mesmo saco que os curdos turcos, que retomaram precipitadamente seu movimento separatista, iniciado há quase quatro décadas. Ocorre que os curdos têm sido os melhores aliados dos EUA na luta contra o “califado” do Estado Islâmico (EI). Nos últimos tempos, acabaram se aproximando da Rússia e de Assad, tendo ajudado a cortar o corredor que fazia a ligação entre Turquia e Alepo, numa tentativa de unir os dois enclaves curdos que se estendem ao longo da fronteira sírio-turca.

Em apoio à Turquia, a Arábia Saudita deslocou aviões de caça para a base aérea de Incirlik. Os sauditas também anunciaram exercícios militares com a participação de aliados sunitas, como Egito, Marrocos e Paquistão. Além disso, prontificaram-se a introduzir em território sírio forças especiais, com tropas de elite americanas, com o objetivo, para todos os efeitos, de combater o EI. Os diplomatas falam numa reedição da operação conduzida durante os anos 80 por EUA, Arábia Saudita e Paquistão, com o objetivo de armar com mísseis Stinger os grupos afegãos que combatiam o Exército soviético. Estariam os sauditas dispostos a equipar grupos sunitas com armas antiaéreas para neutralizar o poderio aéreo russo?

Mais alarmante ainda é a possibilidade de uma guerra entre a Turquia e a Rússia. Em novembro, os turcos derrubaram um jato russo. Agora Moscou quer se vingar, e busca uma oportunidade para pôr o irascível Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, em conflito com seus aliados na Otan.

De modo que a Síria coloca riscos crescentes para o Ocidente: da proliferação de mísseis terra-ar, que podem cair nas mãos de jihadistas e ser usados contra aviões ocidentais, à eventual debilitação de países como Líbano e Jordânia; da desestabilização da União Europeia com a chegada de uma nova onda de refugiados à ocorrência de incidentes que façam a Otan entrar em guerra com a Rússia; da possibilidade de que Putin se anime a desafiar o Ocidente em outros lugares ao perigo de que ele sirva de inspiração a autocratas por toda a parte.

O Ocidente deve recomendar cautela a turcos e sauditas: os riscos de uma guerra com a Rússia e de um ricochete jihadista são altos demais. Os EUA precisam convencer seus amigos turcos e curdos a buscar uma acomodação, em vez de insistir no confronto. Mas, se pretendem manter alguma influência na questão síria, os americanos terão de ampliar seu envolvimento. Será um desastre se Assad e os russos conseguirem transformar a guerra numa escolha entre o regime e os piores jihadistas. A maioria dos sírios é formada por sunitas, e muitos deles jamais se reconciliarão com Assad. Se forem esmagados, os grupos moderados terão duas opções: ir para a Europa ou cair nos braços dos jihadistas. Portanto, os sunitas que não se identificam com a causa jihadista precisam de apoio.

A inação de Obama já produziu uma consequência trágica: ações que antes eram viáveis, como o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea, agora trazem o risco de um confronto com a Rússia. Talvez ainda seja possível estabelecer zonas humanitárias informais. A melhor resposta de Obama seria levar sua estratégia a sério: criar uma força moderada para combater o califado no leste da Síria. Isso seria apoiado por países sunitas; ofereceria aos rebeldes moderados um território vasto o bastante para que pudessem instaurar o núcleo de um governo alternativo, sob a proteção das operações aéreas que os americanos já realizam na região; e seria uma forma de obrigar os russos a provar que sua intenção é realmente combater os jihadistas.

O Ocidente terá de pressionar a Rússia, a começar pela renovação das sanções da UE no segundo semestre deste ano. Putin foi astucioso no uso da força. A resposta do Ocidente não pode ficar limitada à Síria. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER 

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