O perigo dos grandes túneis

A Europa, por causa das montanhas que ocupam seu centro (os Alpes, principalmente), é cheia de túneis, ferroviários e rodoviários. E, infelizmente, há incêndios com freqüência nesses túneis. Neles, o menor acidente de algum veículo transforma-se em uma catástrofe. Ontem, no túnel suíço do maciço Saint-Gothard: dez mortos. Um desastre como esse não tem nada de excepcional. Nos últimos cinco anos, cinco ou seis dramas aconteceram nos túneis dos Alpes: em 1999, o túnel franco-italiano do Mont-Blanc ficou em chamas logo após um acidente de caminhões: 39 mortos queimados vivos e a obra, ultra moderna, foi fechada desde então. Na Áustria, país completamente encravado nos Alpes, três grandes acidentes em túneis. A esses dramas subterrâneos convém acrescentar os dramas aéreos em montanhas: na Áustria, um incêndio de um teleférico causou a morte de 155 pessoas em novembro de 2000. E uma nova geração de túneis é desenvolvida, os túneis submarinos, sobretudo o túnel do canal da Mancha, ao mesmo tempo ferroviário e rodoviário. Alertas foram feitos: um incêndio ali alcançaria dimensões extraordinárias. O custo humano é gigantesco. Mas também o custo industrial ou comercial: a construção dessas obras de arte tem um custo de arruinar. E quando ficam inutilizadas muitos meses, como o túnel do Mont-Blanc, todo o tráfego rodoviário europeu fica obstruído. Os caminhões têm que passar por desvios. O preço dos transportes aumenta etc. A cada uma dessas catástrofes, um certo número de vozes reivindica o abandono dos transportes por túnel. Isso é praticamente impossível: o maciço dos Alpes, que ocupa uma grande parte da Europa, dos Bálcãs até Nice, na França, é tão espesso, tão abrupto, que somente os túneis permitem atravessá-lo. Certamente, a solução não passa então pelo abandono dos túneis, mas por uma fiscalização rigorosa, por novas normas de construção e de utilização. Afinal de contas, Los Angeles e Tóquio foram construídas em regiões com grandes riscos de terremotos. No entanto, construíram cidades enormes. Mas com normas ferozes. Essas tragédias dão razão aos que lutam contra o transporte por rodovias, que se desenvolve bem mais rapidamente que o transporte por estradas de ferro. O caminhão tem muitas vantagens: flexibilidade, possibilidade de acomodar a carga nos veículos, acesso direto ao centro das cidades, custo inferior etc. Mas não é só isso. Há também um lobby do caminhão europeu de uma força prodigiosa, e nenhum governo jamais ousou desafiar esse lobby. Enfim, há uma outra causa para esses acidentes constantes: a fadiga dos motoristas rodoviários. São homens fortes, mas empregados por patrões implacáveis, que os obrigam a jornadas desumanas, que os obrigam a dirigir além de qualquer fadiga tolerável. O acidente do túnel suíço do Gothard parece ter sua origem nessa fadiga: um motorista de caminhão teria dormido no volante e batido violentamente em outro caminhão. Durante os assassinatos do World Trade Center, observou-se em Nova York a vulnerabilidade das sociedades altamente técnicas. Obviamente, no caso de Nova York, havia uma vontade diabólica de um grupo de homens. No caso dos túneis sob os Alpes, não existe a menor vontade criminosa, mas uma negligência, um abuso, uma avidez, e a fragilidade de todas as técnicas modernas. Mas os efeitos, infelizmente, são da mesma ordem: sem dúvida, houve muito menos mortos no Mont-Blanc e no Saint-Gothard do que em Manhattan. Mas nos dois casos, corpos estirados no asfalto e em chamas - estranhos ecos...

Agencia Estado,

25 Outubro 2001 | 17h16

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