O perigo jihadista

No início de 2011, quando o poder despótico do sírio Bashar Assad foi contestado nas ruas, testemunhamos uma revolução espontânea, nova e livre, de teor democrático e popular. Nas manifestações viam-se mulheres de rosto descoberto. Mas o tempo foi passando e a situação não é mais a mesma. Da Síria e do Oriente Médio chegaram os "loucos de Deus", os jihadistas, perfeitamente armados, treinados, dispostos ao martírio, que não se importam absolutamente com a democracia.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2012 | 03h05

Entre eles, atuam vários integristas e fundamentalistas. Há poucos dias, a brigada Jabhat Al-Nusra (A Frente da Vitória), que se declara salafista e dispõe de consideráveis recursos humanos e materiais, perpetrou ações sangrentas.

Em que consiste esse salafismo? Trata-se de um movimento do século 17 que defende a volta às origens do Islã, à "letra" do Alcorão, não ao seu "espírito". Os sunitas pregam uma moral estreita, rigorosa, imutável, cruel. Sonham criar um Estado islâmico. Eles pregam um islamismo sunita, enquanto o regime de Assad é alauita, uma variedade do xiismo.

Como nas tropas da Al-Qaeda, o martírio é sua arma absoluta. Na terça-feira, o grupo Jabhat Al-Nusra atacou uma câmara de tortura do regime de Assad na periferia de Damasco. Pelo que se sabe, o ataque, apoiado por comandos suicidas, deixou várias dezenas de mortos.

Quinze dias antes, uma ação igualmente ousada atingiu o Estado-Maior do Exército em Damasco. Dois camicazes morreram. Eles também estavam ligados ao movimento jihadista, mas pertenciam a um outro grupo, o Tajamo Ansar Al-Islam (Reunião dos Partidários do Islam). No dia 3, o Jabhat Al-Nusra voltou a atacar na grande cidade de Alepo: camicazes fizeram um verdadeiro massacre, 48 mortos. Não devemos subestimar a importância desses jihadistas.

Eles são ainda raros, mas sua nocividade é extrema. Sua ânsia por enfrentar o martírio lhes confere uma força infinita. Sua presença e sua eficiência permitem que Assad lance no descrédito o conjunto dos revoltosos. Damasco preveniu os ocidentais: "Prestem atenção. Se apoiarem a revolta contra o governo legítimo de Assad, estarão abrindo o caminho na Síria para um regime pior do que o dos talebans, do mulá Omar ou da Al-Qaeda".

Esses argumentos são levados em conta pelos ocidentais. Eles explicam a hesitação, a covardia e o recuo da comunidade democrática, já escaldada pelos acontecimentos nos outros países da Primavera Árabe (Tunísia, Egito, Líbia), onde, depois da grande festa lírica, viu-se a instalação de forças frequentemente extremistas.

A presença dos jihadistas na Síria impede pois que os ocidentais forneçam armamentos aos revoltosos sírios. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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