Petros Giannakouris/AP
Petros Giannakouris/AP

O perigo turco

Reações violentas de Erdogan causam desconforto em americanos e europeus

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2016 | 05h00

Mais um enigma para a União Europeia: a Turquia. Já não era uma parceira fácil anos atrás, depois que Erdogan, o presidente da república, entusiasmado com seus próprios sucessos, se lançara numa diplomacia aventurosa e barroca, mantendo-se próximo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da Europa, e, ao mesmo tempo, cultivando fantasias islâmicas, com o estranho desejo de Ancara, nos últimos meses, de celebrar os grandes momentos do Império Otomano.

O recente golpe de Estado militar, rapidamente esmagado por Erdogan, embaralha mais uma vez o tabuleiro. Os ocidentais estão divididos entre duas necessidades: por um lado, regozijam-se pela vitória da legalidade (Erdogan) e com a condenação dos autores do “putsch”. Mas, por outro, as reações de Erdogan, após o terrível alerta, são tão violentas que provocam desconforto tanto nos americanos quanto nos europeus.

O Exército turco está acéfalo, milhares de militares foram presos, assim como centenas de juízes. A tentação é grande para Erdogan de aproveitar-se deste grande alerta para exacerbar seu poder. Ele sonha em restabelecer a pena de morte que havia sido abolida em 2004 e empreender uma caça às bruxas a fim de concentrar todos os poderes em suas mãos. Ocorre que a Turquia é um membro-chave da Otan e sempre anseia ingressar na União Europeia. Portanto, é inevitável que o Ocidente observe com grande inquietação esta aliada esquiva.

Há outro pomo da discórdia entre Erdogan e os Estados Unidos: o presidente turco exige de Washington a extradição do pregador turco Fethullah Gulen, exilado naquele país desde 1999. Por que esta fixação? E quem é Gulen?

Após a guerra de 1914, Kemal Ataturk tomou o poder e limpou a Turquia de seus vetustos sonhos otomanos e religiosos. Ele é o inventor da Turquia moderna, democrática e laica. Mas, há uns 15 anos, dois homens trataram de erradicar todos os vestígios do kemalismo, e particularmente sua doutrina laica, ainda presente na Turquia.

Estes dois homens são Recep Tayyip Erdogan, o líder do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) de um lado, e do outro o pregador Fethullah Gulen, chefe da Confraria, ou seja o homem hoje exilado nos Estados Unidos que Erdogan exige que seja extraditado porque está convencido de que o recente levante militar turco foi inspirado por ele.

Por algum tempo, os dois trabalharam com o mesmo objetivo, mas com métodos muito diferentes. A Confraria é uma espécie de sociedade secreta, elitista, que se dedica a formar em suas escolas os futuros quadros do país. Ela se infiltra na alta administração, na justiça e no Exército. Erdogan, ao contrário, e seu partido o AK, escolheram tomar o poder por meio do sufrágio universal, e conseguiram.

Inimigos. Durante muito tempo, os dois homens caminharam pari passo. Juntos, eles reduziram e desmantelaram o establishment kemalista. Mas, depois das primaveras árabes, afastaram-se, tornando-se inimigos. Erdogan julgou que poderia tomar a frente das sociedades muçulmanas convertidas à democracia: Líbia, Egito, Tunísia. Foi aí que ele se afastou do antigo cúmplice, o pregador Gulen. E nos últimos dias, com a tentativa de golpe fomentada pelas elites turcas (altos escalões do governo, Justiça e Exército, ou seja precisamente os três terrenos de caça da Confraria de Gulen), convenceu-se de que finalmente poderia se livrar do rival. Por isso, exige com veemência que os Estados Unidos mandem de volta à Turquia o líder da Confraria.

O presidente Erdogan triunfou sobre os amotinados, dando prova de sangue frio, de profissionalismo e de talento. Os militares e os juízes, ao contrário, acumularam uma série de erros. E caíram na rede! Mas ainda resta um pequeno mistério.

Na noite do levante, o presidente Erdogan estava de férias em Marmaris, na costa do Mar Egeu. Os militares da Força Aérea tinham a missão de tomar de assalto o hotel onde o presidente Erdogan descansava. 

Este, prevenido, deixou o hotel e foi para o aeroporto de Dalaman onde tomou um avião rumo a Istambul. Em salvo! Mas os comandantes dos aviadores, após fracassarem, evaporaram e ninguém sabe do seu paradeiro. Estão sendo procurados. / TRADUÇÃO DE ANA CAPOVILLA 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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