O perigoso sistema político de Israel

Não se pode perder tempo pensando em como manter coalizões quando o direito de existir do país é questionado

DOMINIQUE MOISI, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2010 | 00h00

O que há de errado com Israel? Nos últimos anos, o Estado judeu parece ter feito mais que todos seus inimigos juntos para se deslegitimar aos olhos do mundo. A aparente incapacidade de pensar em termos estratégicos e sua indiferença perante a opinião pública global estão resultando numa crescente frustração entre seus cidadãos e, o que pode ser mais perigoso, num aprofundamento do isolamento internacional.

Como explicar essa evolução trágica? Terá sido simplesmente inevitável para um povo, privado de um Estado por mais de 2 mil anos, perder a capacidade de agir coletivamente ao modo de uma razão de Estado? Ou talvez o peso da lembrança do Holocausto tenha cegado os líderes e destorcido seu pensamento - de um modo que, na época em que Israel foi criado, o Holocausto quase milagrosamente não cegou.

O fracasso do processo de paz nos anos 90 e o surgimento da segunda Intifada encorajaram a radicalização de extremistas de Israel e desencorajaram moderados. A revitalização de partidos religiosos - num país criado por secularistas - abriu o caminho para um cenário politicamente mais poderoso, mas também mais nacionalista e intolerante.

Ou a explicação para as mazelas de Israel deve ser encontrada no terreno mais prosaico da democracia disfuncional do país? Na verdade, todas essas explicações são em grande medida complementares. Mas a causa mais importante, a que deveria ser enfrentada antes de todas as outras porque está erodindo a própria viabilidade de Israel, é a quase paralisia do sistema político.

A Itália consegue sobreviver sendo mal governada e com um alto grau de corrupção porque está cercada pelo ambiente pacífico da União Europeia. Isso não ocorre com Israel. Protegido por um "muro de segurança" de um lado e o mar do outro, o país pode desfrutar do sentimento de viver numa ilha artificial da qual podem se conectar com as áreas de modernidade e prosperidade na Ásia e no Ocidente. Mas está rodeado por um mar de pessoas iradas e frustradas, e não pode escapar da lógica da região.

Reforma. O sistema político de Israel, por meio de seus complexos mecanismos de seleção partidária manipulada e desproporcionalidade, condena o país a governos de coalizão fracos. Ele precisa ser reformado. Os líderes não podem se dar o luxo de gastar 90% de seu tempo pensando em como sobreviver politicamente num momento em que o direito de existência do país é questionado.

Esse erro sistemático de cálculo pode ser explicado do seguinte modo. Da guerra de 2006 no Líbano ao recente ataque com nove mortes a uma frota que seguia para Gaza, os líderes israelenses avaliaram pessimamente a relação entre ganhos militares e riscos políticos, e a proporcionalidade entre os dois.

Isso é ainda mais perigoso para Israel tendo em vista o aparente declínio de sua capacidade militar. Mesmo a operação em Gaza em 2008-2009, apesar de seu aparente sucesso militar, foi altamente danosa em termos políticos.

Desde que o centro político deslocou-se para a direita, se não para a extrema direita, uma consequência é a crescente alienação de cidadãos árabes, que representam 20% da população. Ontem, eles se sentiam discriminados. Hoje, sentem-se "ocupados" por uma nação da qual nunca fizeram parte, e por um Estado que percebem como "democrático" para judeus e "judaico" para os árabes.

Israel precisa de aliados cujos povos aceitem o que ele é e respeitem o que ele faz. Chegará um momento em que as ações de Israel incitarão povos - não só os mais fanáticos dos inimigos, mas também os mais inclinados dos apoiadores - a questionar a essência de Israel. O país não pode continuar a ser mal governado. Uma reforma do sistema político tornou-se questão de vida ou morte. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É DIRETOR DO INSTITUTO DE

RELAÇÕES POLÍTICAS DE PARIS

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