O Peru a salvo

A apertada vitória de Pedro Pablo Kuczynski nas eleições presidenciais de cinco de junho salvou o Peru de uma catástrofe: o retorno ao poder da máfia fujimorista que, nos anos da ditadura de Alberto Fujimori e Vladimiro Montesinos, roubou, torturou e assassinou com uma ferocidade sem precedentes e, provavelmente, a instalação do primeiro narcoestado da América Latina.

Mario Vargas Llosa*, O Estado de S. Paulo

12 Junho 2016 | 05h00

A vitória de Keiko Fujimori parecia irremediável há algumas semanas, quando então foi descoberto que Joaquín Ramírez, secretário-geral e milionário financiador da sua campanha e0 do seu partido, Fuerza Popular, era investigado pelo departamento antidrogas americano por lavagem de dinheiro. Foi lembrado, então, que a polícia havia descoberto um contrabando de cerca de cem quilos de cocaína num depósito de uma empresa de Kenji, irmão de Keiko, que pretendia sucedê-la no governo. 

O fujimorismo, assustado, tentou uma operação suja. O chefe do Fuerza Popular e candidato à vice-presidência, José Chlimper, vazou para um canal de TV que é próximo dos fujimoristas uma gravação manipulada para esvaziar o caso, mas, descoberto o fato, o escândalo se ampliou. Muitos eleitores potenciais de Keiko que ingenuamente haviam engolido sua propaganda de que, com o Exército nas ruas para combater os delinquentes e a pena de morte reinstaurada, o Peru teria segurança, mudaram seu voto.

Mas o que mudou de fato a tendência e garantiu a vitória a Kuczynski foi a decisão de Verónika Mendoza, líder da coalizão de esquerda, Frente Amplio, anunciando que votaria em PPK e pedindo a seus partidários que a seguissem. Indiscutivelmente, a esquerda, agindo de maneira responsável – algo com escassos precedentes na história recente do Peru – salvou a democracia e garantiu a continuação de uma política que, desde o fim da ditadura em 2000, propiciou ao país um notável avanço econômico e o fortalecimento gradual das instituições e práticas democráticas.

Governabilidade. O novo governo não terá vida fácil com um Parlamento onde o fujimorismo é majoritário. Mas Kuczynski é um homem flexível e bom negociador, capaz de encontrar aliados entre os adversários para votar boas leis e reformas que constam do seu programa de governo. Por outro lado, é preciso assinalar que, do mesmo modo que Mauricio Macri na Argentina, ele conta com uma equipe de colaboradores de primeira linha, técnicos e profissionais destacados que até agora resistiam a fazer política e só o fizeram para impedir o Peru de desmoronar novamente no despotismo político e na ruína econômica. Por outro lado, seu prestígio internacional no mundo financeiro continuará atraindo os investimentos que há 16 anos vêm respaldando a economia peruana – que, lembremos, é a que mais tem crescido em toda a região.

O que ocorrerá agora com o fujimorismo? Continuará subsistindo como sinistro emblema da tradição incivilizada das ditaduras terroristas e cleptomaníacas que enlutaram o passado peruano? Minha esperança é de que essa nova derrota dê início ao mesmo processo de decomposição no qual foram desaparecendo todos os rastros políticos deixados pelas ditaduras: o sanchezcerrismo, o odriísmo e o velasquismo. Todos foram prolongamentos de regimes autoritários que aos poucos se extinguiram. 

O fujimorismo teve uma vida mais longa somente porque contava com recursos gigantescos obtidos com o saque vertiginoso de fundos públicos, dos quais Fujimori e Montesinos dispunham como queriam. Recursos que lhes permitiram, nessa eleição, cobrir o Peru com cartazes de propaganda e distribuir quinquilharias e até dinheiro nas regiões mais pobres. Mas não é um partido que tem ideias ou programas, apenas credenciais golpistas e criminosas, ou seja, a própria negação do Peru digno, justo, próspero e moderno que, nessas eleições, quase por um milagre, escapou de um retrocesso à barbárie.

Onda. A vitória de Pedro Pablo Kuczynski extrapola as fronteiras peruanas e se inscreve no contexto latino-americano como um novo passo contra o populismo e para a regeneração da democracia, do que são acontecimentos emblemáticos o voto boliviano contra as tentativas de reeleição de Evo Morales, a derrota do peronismo na Argentina, a destituição de Dilma Rousseff e a derrubada do mito de Lula no Brasil, a vitória esmagadora da oposição na eleições parlamentares na Venezuela e o exemplo de um regime como o do Uruguai, onde uma esquerda de origem radical no poder não só assegurou o funcionamento da democracia como também pratica uma política econômica moderna, de economia de mercado, que não é incompatível com um avançado trabalho social. 

Talvez valha a pena assinalar também o caso mexicano, onde as recentes eleições parciais desmentiram as previsões de que o líder populista Andrés Manuel López Obrador e seu partido seriam castigados nas urnas – na verdade, o vencedor das eleições foi o Partido de Ação Nacional, de maneira que o futuro democrático do México não parece ameaçado.

Seria ingênuo ver em todos esses fatos recentes uma tendência que se estende pela América Latina em favor da legalidade, da liberdade, da coexistência pacífica, e um rechaço da demagogia, do populismo irresponsável e das utopias coletivistas e estatistas? Como a história não está escrita, sempre pode ocorrer retrocessos. Mas, considerando os prós e contras, acho que há razões para sermos otimistas. 

Estamos distantes do ideal, mas muitíssimo melhores que há 20 anos, quando a democracia parecia encolher por toda parte e o chamado “socialismo do século 21” do comandante Chávez seduzia tantos incautos. O que restou dele? Uma Venezuela em ruínas onde a população morre de fome ou por falta de medicamentos, enfrenta a insegurança nas ruas e onde uma pequena gangue agarrada ao poder golpeia à esquerda e à direita, cada vez mais isolada, face a uma população que despertou da sedução populista e revolucionária e só aspira a recobrar a liberdade e a legalidade.

Acabo de passar algumas semanas na República Dominicana, Chile, Argentina e Brasil e volto para a Europa muito mais animado. Os problemas latino-americanos continuam enormes, mas os avanços também são imensos. Em todos esses países a democracia funciona e as crises por que passam não a colocam em perigo. Pelo contrário, e penso sobretudo no Brasil, creio que a tendência é de regenerá-la, limpá-la da corrupção, permitir que funcione de verdade. Nesse sentido, a vitória de Pedro Pablo Kuczynski no Peru é mais um passo dado pela América Latina na boa direção. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 

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