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O Peru mudou

Eleição de Kuczynski é parte de processo que consolida democracia e torna cada vez mais palpáveis os avanços na sociedade peruana

Norman Gall / ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

11 Junho 2016 | 05h00

Inquietos como de hábito com seu futuro, os temerosos eleitores peruanos compareceram às urnas na eleição presidencial, no domingo, como sobreviventes de muitas calamidades, relutando em acreditar que nas duas últimas décadas criaram uma das mais resilientes democracias da América Latina.

Os resultados muito aproximados dessa eleição constituíram um teste para essa resiliência. Pedro Pablo Kuczynski, também conhecido como PPK, um ex-banqueiro de investimento de 77 anos de idade e economista do Banco Mundial, venceu o escrutínio por somente 0,24% dos votos válidos, derrotando Keiko Fujimori, de 41 anos, filha do ex-presidente preso Alberto Fujimori (que governou o país de 1990 a 2000) e se tornou uma figura polarizadora na política peruana.

Depois de estabilizar a economia e derrotar a insurreição guerrilheira, o pai de Keiko fugiu do Peru em meio a um escândalo de corrupção e assassinatos cometidos por esquadrões da morte, e pelo qual hoje ele cumpre uma sentença de 25 anos de prisão.

Keiko e PPK aguardaram calmamente os resultados da eleição que chegavam a conta-gotas das províncias mais remotas e dos consulados do Peru no exterior, desta que foi a mais recente de uma série de eleições presidenciais extremamente apertadas nas duas últimas décadas, mostrando o quanto o sistema político amadureceu.

A mudança da cultura política do Peru não foi fácil. Os peruanos sofreram golpes militares em cada década desde os anos 30 até a década de 70, o que foi acompanhado pela escalada do populismo nos anos 80, que conduziu a uma hiperinflação (7.650%) em 1990, além das insurreições da guerrilha e operações de contrainsurgência realizadas pelo Exército, com a morte de 69.280 pessoas entre 1980 e 2000, de acordo com a Comissão de Reconciliação e Verdade.

A inflação crônica e a negligência danificaram de tal modo a infraestrutura do país que uma grave epidemia de cólera irrompeu em 1991 e 1992 em decorrência da poluição do sistema de abastecimento de água de Lima, espalhando-se para o Brasil e outros países latino-americanos. A essas ocorrências acrescentemos 13 fortes terremotos que atingiram o país desde 1990.

“Tivemos de chegar ao abismo no fim dos anos 80 para termos a coragem de mudar nosso regime econômico e começar a crescer, depois de três décadas de estagnação, e foi assim que progredimos”, observou Roberto Abusada, do Instituto Peruano de Economia. “Hoje, a grande maioria dos peruanos vive melhor do que há 25 anos. A pobreza foi reduzida em dois terços. As pessoas agora compreendem que sem estabilidade econômica não existe avanço social”.

Keiko é uma política de carreira astuta e ativa que recebeu um apoio residual em razão das políticas de segurança extremamente duras adotadas por seu pai e prometendo não reviver os abusos cometidos por ele ao se candidatar pela segunda vez à presidência, perdendo as duas eleições por estreita margem de votos. 

Histórico. Nos últimos cinco anos, Keiko fez uma campanha dura para erigir um novo partido, o Fuerza Popular, que arrebatou 71 dos 130 assentos do Parlamento. Keiko conquistou 40% dos votos no primeiro turno da eleição, em 10 de abril, entre 19 candidatos presidenciais. PPK obteve um distante segundo lugar com 21%, desbancando a candidata de esquerda, Verónika Mendoza, que, uma semana antes do segundo turno, provocou um maremoto político ao declarar apoio a Kuczynski. 

Keiko perdeu espaço em razão do péssimo desempenho num debate na TV na última semana antes do pleito, em razão das revelações de que seu coordenador de campanha estava envolvido em um esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao tráfico de drogas.

Como Keiko e PPK discordavam em algumas questões políticas, ambos passaram a fazer apologia da lei e da ordem, embora, salvo o banho de sangue à época da guerrilha, nos anos 80 e 90, o Peru historicamente registre baixos índices de violência civil, com o número de homicídios bem abaixo dos computados por Brasil, Venezuela, Colômbia, México e América Central.

As campanhas eleitorais do Peru são muito disputadas e as vitórias são sempre por margens estreitas. A imprensa e os partidos políticos do Peru são mais frágeis que os do Brasil, mas o empenho no sentido de uma estabilidade é mais forte. Nas últimas décadas, o temor da desordem e a promoção da justiça social orientaram a política econômica.

Cada presidente eleito concluiu seu mandato de cinco anos com índices de popularidade abaixo de 15%, mas o Peru mantém a mesma política econômica e é o país que mais rápido cresceu na América Latina nas últimas duas décadas. 

Governos sucessivos mantiveram a economia aberta, com inflação baixa, uma moeda estável e contas fiscais equilibradas – e investiram pesado em infraestrutura. A classificação do Peru no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (IDH, que mede os níveis de longevidade, educação e renda per capita) está próxima da do Brasil, posição que o Peru atingiu com menos da metade da carga fiscal do Brasil como parcela do PIB.

A Constituição peruana veta a reeleição e autoriza o referendo revogatório para a remoção de autoridades eleitas, um obstáculo para que uma classe ou facção política consiga se arraigar no poder e abusar de sua autoridade e privilégios.

Cotidiano. Essas realizações ficam claras quando se viaja pelos vilarejos e cidades nos Andes, como viajei nas últimas cinco décadas.

A reforma agrária transformou servos em cidadãos. Quando estive pela primeira vez no país em 1970, na vasta Hacienda Lauramarca, a 4 mil metros de altura em uma região remota de Cuzco, os camponeses preparavam a terra para o plantio de batata com um arado de madeira incaico, a chaquitacla, enquanto dois homens revolviam a terra e uma mulher quebrava os torrões com as mãos.

Hoje, os camponeses usam pequenos tratores e irrigação por pivô para aprimorar os pastos nas montanhas para o gado leiteiro. As comunicações melhoraram com a proliferação das estradas nas zonas rurais e comunidades isoladas negociam com empresas de telefonia celular para instalar antenas em suas áreas.

Em épocas passadas, os camponeses ergueram algumas escolas com paredes de adobe. Em razão da escassez de carteiras, os alunos de diferentes idades ficavam de pé ao longo das paredes em salas de aulas abarrotadas, divididas por uma cortina de modo a acomodar duas classes. Cada comunidade hoje tem uma escola primária moderna.

Diversas possuem escolas secundárias, graças à descentralização dos gastos públicos que permitiu aos governos locais concentrar recursos em escolas e estradas. “Apostamos na educação”, disse Graciano Maduro Crispín, prefeito do município de Ocongate, que incorporou as terras de Lauramarca, e está preocupado com a qualidade dos professores. 

“Construímos casas para professores na zona rural, cada uma com sua própria cozinha, mas a qualidade do ensino precisa melhorar. Comissões de pais fiscalizam os professores para assegurar que estejam nas salas de aula, mas não basta. As escolas agora necessitam de computadores. As crianças percorrem longas distâncias e estão famintas quando chegam, assim, precisamos de dinheiro para alimentá-las. Essa é a nossa luta diária, mas a vida hoje está melhor.”

Richard Webb Duarte, membro do Braudel Institute, que por duas vezes foi presidente do Banco Central do Peru, agora concentra suas energias na pesquisa sobre o avanço econômico e social em outras regiões dos Andes. “As novas escolas mais atrativas em cada cidade ou vilarejo chamam a atenção, mas os postos de atendimento médico também multiplicaram e ampliaram seu alcance, graças aos celulares que estão por toda a parte, às novas estradas e ambulâncias”, observa Webb. 

“Os povoados e cidades nos Andes vêm crescendo rapidamente, com metade da população das serras agora urbanizada. As estradas e um transporte público abundante permitem aos agricultores acesso mais fácil aos mercados das cidades. As estradas são construídas e mantidas pelos governos locais. A renda nessas localidades vem crescendo. Hoje, elas abrigam uma burocracia muito maior e a urbanização supõe uma especialização crescente e consumidores mais diversificados. Os mercados nas cidades respaldam a produção maior de gado e porquinhos da Índia, com subprodutos como carne, leite e queijo.”

O Peru descentralizou as despesas públicas, mas os recursos são transferidos para comunidades sob controle local para fins produtivos, enquanto no Brasil o dinheiro é transferido para indivíduos e famílias, que absorvem três quartos das despesas federais não financeiras com base num sistema de parasitismo fiscal, consagrando direitos adquiridos cada vez mais difíceis de manter. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA E DIRETOR EXECUTIVO DO INSTITUTO FERNAND BRAUDEL DE ECONOMIA MUNDIAL. FAZ REPORTAGENS E PESQUISAS NO PERU DESDE 1963

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