Ben Stansall / AFP
Ben Stansall / AFP

O pesadelo britânico antes do Natal

Dividido pelo Brexit, Reino Unido enfrenta eleição com candidatos ruins e que deve separar o país ainda mais

The Economist, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2019 | 07h00

Os eleitores britânicos foram convocados para comparecer às urnas – e as opções apresentadas a eles são cada vez piores. Trabalhistas e conservadores, que já foram partidos de centro-esquerda e de direita, distanciaram-se cada vez mais nas últimas três eleições. Nesta semana, os eleitores enfrentam sua escolha mais difícil até agora, entre o conservador Boris Johnson, que promete um Brexit duro, e o trabalhista Jeremy Corbyn, que planeja “reescrever as regras da economia” ao longo de linhas socialistas. 

Johnson dirige o novo governo mais impopular já registrado. Corbyn é o líder mais impopular da oposição. Na sexta-feira, os britânicos acordarão tendo um desses horrores no comando. Nas últimas eleições, lamentávamos a tendência ao extremismo. Os manifestos de hoje vão muito além. 

Em 2017, os trabalhistas estavam à esquerda das principais correntes europeias. Hoje, eles tomariam 10% do patrimônio das grandes empresas, para ser mantido em fundos que são pagos principalmente para o Tesouro, e não para os trabalhadores que deveriam ser os beneficiários. 

Eles defendem a introdução gradual de uma semana de quatro dias, supostamente sem perda de pagamento. A lista de indústrias a serem nacionalizadas só cresce. As patentes de medicamentos poderão ser forçosamente licenciadas. O projeto de lei para um rápido aumento nos gastos recairia sobre os ricos e as empresas, cujo ônus tributário passaria do mais baixo no G-7 para o mais elevado. É uma tentativa de lidar com os problemas do século 21 recorrendo a políticas que fracassaram no século 20.

Corbyn também nada fez para atenuar as preocupações com sua visão mais ampla de mundo. Crítico da política externa do Ocidente e simpatizante dos ditadores do Irã e da Venezuela, ele culpou a Otan pela invasão russa da Ucrânia, em 2014.

No ano passado, sugeriu que amostras de um agente nervoso usado para envenenar um ex-espião russo em Salisbury deveriam ser enviadas a Moscou, para que Vladimir Putin pudesse ver se eram dele. Sob um tal premiê, o Reino Unido não poderia confiar em informações recebidas da inteligência americana. 

Corbyn também não lidou com o antissemitismo que se enraizou no trabalhismo. Alguns dos que optaram por permanecer na UE podem engolir isso como o preço de um segundo referendo sobre o Brexit, que Corbyn finalmente prometeu. Há muito defendemos esse voto. Mas os planos de Corbyn e suas opiniões falidas significam que The Economist não pode apoiar os trabalhistas.

Os conservadores também ficaram mais temerosos desde 2017. Johnson livrou-se do acordo do Brexit negociado por Theresa May e fechou um pior ainda. O público está tão cansado de todo o fiasco que sua promessa de “conseguir cumprir o Brexit” ganha votos. Mas ele não faria isso. Depois que o Reino Unido deixar a UE, no início de 2020, começaria o trabalho duro de negociar um acordo comercial. Johnson promete fazer isso até o final de 2020 ou sair sem nenhum.

Portanto, a ideia de nenhum acordo ainda está sobre a mesa – e é uma verdadeira perspectiva, já que conseguir um acordo em menos de um ano parece difícil. As melhores estimativas sugerem que sair sem acordo tornaria as rendas médias 8% menores do que teriam sido após dez anos.

O Brexit não é o único problema de Johnson. Ele expurgou os conservadores moderados e acelerou a mudança de um partido econômica e socialmente liberal para um economicamente intervencionista e culturalmente conservador. Em busca de assentos para a classe trabalhadora, que votou pela saída da UE no norte da Inglaterra, ele propôs auxílio estatal extra, compras governamentais e um plano superficial de impostos e gastos que não fazem sentido. 

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Além disso, ele absorveu a lição fatal da campanha do Brexit: que não há punição por mentir ou violar as regras. Ele prometeu não suspender o Parlamento, depois o fez; prometeu não estender as negociações do Brexit, então o fez. Essa atitude reprovável corrói a confiança na democracia. Como Corbyn, ele tornou normal o preconceito, ao exibir o seu e fracassando em investigá-lo no seu partido (os dois são considerados racistas por 30% dos eleitores). Por todas essas razões, The Economist não pode apoiar os conservadores.

Isso deixa uma baixa expectativa para os liberal-democratas. Eles também se tornaram mais radicais desde que os apoiamos, em 2017. Sob um novo líder, Jo Swinson, eles foram além da ideia de um segundo referendo para uma promessa irresponsável de reverter o Brexit unilateralmente. Foi um tiro que saiu pela culatra.

Mas sua abordagem econômica – um aumento moderado nos gastos, pago por aumentos amplos na base dos impostos – é a mais sensata dos principais partidos e é a única a ser honesta quanto ao custo de uma sociedade em fase de envelhecimento. Quanto à mudança climática e política social, eles encontram o melhor equilíbrio entre ambição e realismo. Eles são a única opção para quem rejeita tanto o Brexit duro dos conservadores e os planos de uma esquerda rígida dos trabalhistas.

Mas eles não vão ganhar. Então, por que apoiá-los? A razão prática é conter quem quer que acabe no governo. Os eleitores temem que o apoio aos liberal-democratas seja jogado nas mãos de Corbyn, mas nosso modelo sugere que os votos e os assentos seriam distribuídos de maneira equilibrada por ambas as partes. Corbyn está se preparando para governar com o Partido Nacional Escocês, que apoiaria a maior parte de seu programa em troca de outro referendo sobre independência. Ter mais liberal-democratas colocaria seus planos em cheque. 

Da mesma forma, eles controlariam Johnson. Alguns conservadores se apegam à esperança de que, se ele vencer por uma grande maioria, abandonará o ato populista e redescobrirá seus instintos liberais. Estão iludidos. O oposto é verdadeiro: quanto mais significativa a maioria dos conservadores, mais drástica será a transformação do partido.

A razão de princípios morais mais elevados é que os liberais estão mais próximos do liberalismo em que The Economist foi fundada. Uma forte demonstração dos liberais sinalizaria aos eleitores que favorecem mercados abertos e uma sociedade liberal que o centro está vivo. Não há resultado bom para esse pesadelo de eleição. Mas, se o centro se mantiver, ainda há esperança para o Reino Unido. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

© 2019 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

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