O pesadelo das oligarquias

O ditador Zine El Abidine Ben Ali e sua mulher, Leila, fugiram com 1,5 tonelada de ouro na bagagem. A nova Tunísia está dividida entre a esperança de democracia e a ameaça da anarquia ou do islamismo. Um dos mais belos países do Magreb desperta, de repente, de um pesadelo. É um romance fantástico cujos capítulos se desenrolam sob nossos olhos atônitos.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

Não somos os únicos a tentar entender as imagens de Túnis. Todo o mundo árabe está de olho na "Revolução do Jasmim", flor nacional tunisiana. Mas, evidentemente, o olhar do homem comum é diferente daqueles que se recostam em palácios. Para o povo, a Tunísia é uma esperança. Para quem está no poder, uma calamidade.

É claro que a situação nos países árabes varia muito. A Tunísia, uma nação culta, burguesa e pacífica, não tem nenhuma semelhança com a Argélia, país violento, nervoso, infectado pelo vírus do islamismo. Ou com o Egito, sufocado pelo regime de Hosni Mubarak. No entanto, eles se parecem em pelo menos um ponto: estão submetidos a poderes ferozes que raramente se renovam. Na Argélia, Abdelaziz Bouteflika reina há 11 anos. No Egito, Mubarak está no poder há três décadas.

Com o fim da União Soviética, a democracia evoluiu em todas as partes, até mesmo no mundo árabe. As populações acabaram se resignando. Para elas, as ditaduras são eternas. Nesse sentido, os tumultos da Tunísia apavoram os déspotas. Os jovens burgueses cultos de Túnis, que enfrentaram heroicamente uma polícia imunda, mostraram que o poder, ainda que cruel, não é um direito divino. E os ditadores, às vezes, fogem como ladrões.

Na Tunísia, a revolta foi desencadeada há um mês pelo suicídio de um jovem com formação universitária que vendia legumes na rua e teve o carrinho confiscado por um policial idiota. O jovem ateou fogo ao corpo. Na Argélia, no domingo, um desempregado de 37 anos também se matou assim. No Egito, outro desempregado ateou fogo ao corpo diante do Parlamento. No Iêmen, estudantes protestaram. Na Jordânia, 3 mil trabalhadores sindicalizados, islâmicos e militantes de esquerda, insurgiram-se contra a corrupção. No Marrocos, o rei proibiu uma manifestação de apoio aos tunisianos.

A Liga Árabe reúne-se em março em Bagdá. Ela manterá uma posição "discreta". A organização reúne os líderes corruptos de países muito pobres e ameaçados pela secessão, como Iêmen e Sudão, esclerosados, como Argélia e Síria, ou dilacerados, como Líbano, Iraque e Palestina.

É inútil dizer que o milagre tunisiano não se repetirá facilmente. Também é preciso avaliar os perigos de eventuais distúrbios. Dois riscos assombram os países que se livraram da ditadura: a anarquia, consequência de anos de partido único, e o islamismo, presente em grupos como a Irmandade Muçulmana, no Egito, e o GIA, na Argélia. Um embaixador árabe em Paris declarou ontem ao jornal Le Monde que "a revolução tunisiana ilustra uma crise do Estado árabe que não é mais possível esconder". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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