AP Photo/John Minchillo
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O pesadelo de Trump

Eleição de Sadiq Khan para prefeito de Londres foi uma conquista da indiferença madura e esclarecida

The Economist, O Estado de S. Paulo

17 Maio 2016 | 05h00

Mais cedo ou mais tarde, todo político britânico de destaque acaba sendo convidado para participar do Privy Council, o órgão que em tese assessora a rainha. Em 2009, o Palácio de Buckingham quis saber de Sadiq Khan, então ministro dos Transportes do governo trabalhista liderado por Gordon Brown, qual versão da Bíblia ele gostaria de usar para prestar seu juramento. Khan respondeu que, por ser muçulmano, preferia usar um Alcorão. Como não havia edições da obra em Buckingham, ele levou seu próprio exemplar. Depois, quando tentaram devolvê-lo, Khan perguntou: “Que tal se eu o deixasse aqui para os que vierem depois de mim?”.

No dia 5 de maio, os eleitores de Londres escolheram Sadiq Khan como seu prefeito. Assim, excluindo-se os presidentes de Portugal e França, que são eleitos pelo voto direto, esse filho de imigrantes paquistaneses é hoje o político que detém o mais expressivo mandato pessoal em toda a Europa. A derrota acachapante que ele impôs aos conservadores - Khan teve 57% dos votos, contra 43% de seu adversário, o almofadinha Zac Goolsdmith - foi uma resposta a linhas-duras de todos os matizes. 

De um só golpe, a tarefa dos recrutadores do Estado Islâmico (EI) - que percorrem os conjuntos habitacionais europeus tentando convencer jovens muçulmanos de origem imigrante de que não há lugar para eles no Ocidente liberal - tornou-se bem mais complexa. A capital “de facto” desse Ocidente liberal acaba de colocar seu futuro nas mãos de um pai de família muçulmano, um sujeito que frequenta regularmente sua mesquita, é favorável ao casamento de homossexuais e saiu de um conjunto habitacional igualzinho àqueles em que os islamistas fazem seu proselitismo.

A vitória de Khan também é uma resposta a xenófobos ocidentais como Donald Trump e Nigel Farage, o líder do Partido pela Independência da Grã-Bretanha, além de expor a estultice dos estrangeiros que, em visita à Europa, veem uma mulher com a cabeça coberta por um niqab e saem apregoando aos sete ventos que o continente está sob a lei da Sharia. 

Na terça-feira, Trump declarou que a proibição à entrada de muçulmanos não americanos nos Estados Unidos, proposta por ele em dezembro, não se aplicaria a Khan. O novo prefeito de Londres rejeitou a deferência: “Não sou eu que estou em jogo. São os meus amigos, a minha família e todos aqueles que têm origens como as minhas, em qualquer lugar do mundo”. Em questão de dias, Khan usou a bobajada sobre o “Londristão” e a “Eurábia” para tornar-se um símbolo mundial de tolerância e pluralismo religioso.

Habilidade. Khan entrou para a vida pública atuando na zona sul de Londres e é mais bem compreendido se visto no contexto da política interna do Partido Trabalhista: trata-se de um social democrata típico, que, mais ideologicamente flexível que a maioria, posicionou-se na centro-esquerda do partido quando, depois de uma década de domínio de Tony Blair, isso estava em voga. Nas ruas de sobrados vitorianos de Streatham e outros bairros das redondezas, Khan era apenas “Sadiq”, o sujeito que, com sua habilidade para operar a máquina política do partido, colocou sob controle relativamente confortável dos trabalhistas o distrito de Tooting, quando um político menos calejado poderia tê-lo perdido para os conservadores.

Sua vitória teve mais a ver com o parlamentar que se esforça para se manter próximo e atuante junto ao eleitorado do que com o emblema cosmopolita - ou o muçulmano radical - que ocupou a primeira página dos jornais no mundo inteiro. E é aí que está o verdadeiro contra-ataque a tipos como Trump e Farage. Porque o avesso do populismo xenófobo não é o ultraprogressismo, mas a disposição para lutar pelo epíteto de “pragmático”. Trata-se de brigar pelo eleitor que não faz mais do que bocejar diante dos grunhidos e resmungos do homem das cavernas, com sua obsessão em determinar quem faz e quem não faz parte da tribo. 

A resposta definitiva a um comício de Trump não é a manifestação do lado de fora do ginásio, mas o cidadão que passa por ali e, sem se deixar escandalizar nem entusiasmar, segue em frente com indiferença. Se antes ser “progressista” significava erguer o punho no ar, agora significa simplesmente dar de ombros.

A eleição para a prefeitura de Londres não poderia ter sido mais normal. A capital da Grã-Bretanha é uma cidade tradicionalmente trabalhista e Khan é um político trabalhista tradicional. Sua vitória faz parte da ordem natural das coisas. As insinuações que Goldsmith fez sobre os vínculos de seu oponente com muçulmanos reacionários - as quais, na boca de um político mais hábil, poderiam ter dado margem a indagações legítimas sobre o quanto Khan se dispõe a flexibilizar seus princípios para agradar aos eleitores - soaram crassas e despropositadas. Seu efeito foi mínimo. 

Mais interessados no compromisso assumido por Khan de permitir que, ao usar mais de um ônibus em suas locomoções diárias, os usuários de transporte coletivo não tenham de pagar tarifas adicionais, os eleitores ignoraram as perorações do conservador, votaram no trabalhista e, sem querer, fizeram história. Para os veteranos da política londrina, o mais interessante não foi a eleição de um muçulmano para a prefeitura, mas os sinais preliminares de que a votação de Khan entre os eleitores brancos dos subúrbios de classe média foi superior à que os trabalhistas costumam ter. Também chamou a atenção o fato de que Goldsmith - apesar de todos os seus esforços em contrário - beneficiou-se da ascensão estrutural do voto conservador não branco.

Derrotar ‘os Trumps’. Segundo Sunder Katwala, do centro de estudos e pesquisas British Future, a conquista de Khan é um indício da despolarização da sociedade. O trabalhista será avaliado com base no uso que fizer disso. Na prefeitura, os recursos políticos de que ele dispõe são limitados. Falando a The Economist antes da eleição, Khan fez questão de frisar que pretende fortalecê-los. Isso é positivo: a descentralização é sempre bem-vinda. Mas o maior impacto que ele pode ter como prefeito é fazer dessa sua conquista inicial algo ainda mais corriqueiro. Nesse aspecto, os sinais não poderiam ser mais promissores: à medida em que as gerações se sucedem e os britânicos não brancos deixam as cidades para se instalar nos subúrbios de classe média, cada vez mais os eleitores do país recorrem a elementos cívicos - comportamento social e político -, em vez de étnicos - raízes familiares e raça -, para definir sua identidade.

De acordo com estimativas divulgadas pelo centro de estudos e pesquisas Demos, até 2045, a Grã-Bretanha será, proporcionalmente, tão não branca quanto os EUA. O país tem muito trabalho pela frente para se preparar para essa mudança. Os bolsões segregados precisam ser alvo de políticas de integração. Em algumas partes da Grã-Bretanha, os muçulmanos vivem num isolamento perigoso e não se parecem nem um pouco com Sadiq Khan. O velho e simplista ideal do multiculturalismo deve dar lugar a algo mais sofisticado: a integração não apenas como responsabilidade local, mas como preocupação de âmbito nacional, envolvendo até o primeiro-ministro e seu gabinete.

Como prefeito, Khan dispõe de um palanque extraordinário, cujo alcance não se limita a Londres e à Grã-Bretanha - e ele deve usá-lo para promover uma espécie pluralista de nacionalidade, desarmando as tensões entre grupos étnicos e religiosos e chamando a atenção para os fracassos e sucessos da integração. Donald Trump provavelmente perderá para Hillary Clinton. Mas sua derrota final, pelo menos na Grã-Bretanha, virá quando as páginas do Alcorão que Khan deixou no Palácio de Buckingham estiverem gastas de tanto uso - e ninguém ligar a mínima. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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