Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

O pessimista: ‘Perdemos tudo, até um pouco de humanidade’

Doha Mohamed era um arquiteto de sucesso na cidade síria de Alepo. Quando finalmente decidiu abandonar sua casa, em parte destruída, já tinha vendido tudo o que tinha. Carro, projetos, televisão e até dois computadores. Mas sua maior perda foi a morte de seu pai e de um irmão.

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL ROSZKE, HUNGRIA, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2015 | 07h00

Aos 44 anos, ele conseguiu trocar dinheiro com “grupos armados radicais” e partiu rumo à Europa. Levou cerca de 12 mil euros para pagar os traficantes, comer e começar uma nova vida. Três semanas depois, chegou à Áustria com apenas 72 euros.

“Perdi tudo pelo caminho”, contou o arquiteto, exausto e desiludido. “A cada trecho, tínhamos de pagar aos traficantes. Não queria morrer em um caminhão, então gastei mais”, explicou. “Essa é a ironia dessa guerra. Vão sair da Síria e sobreviver aqueles com dinheiro. Os pobres são os primeiros a morrer, até mesmo pelo caminho.” 

Mohamed conta que também perdeu “muito dinheiro” quando foi assaltado na Sérvia. “Às vezes, tenho a impressão de que a maldade é maior que qualquer outra força. Como alguém pode roubar um refugiado?” Mas é da Hungria que ele guarda os piores sentimentos. “Foi um pesadelo. O governo húngaro não é humano. Não imaginava que alguém poderia ser assim na Europa, tão rica.” Questionado se ele não via a chegada à Áustria como um novo recomeço, respondeu: “Não sei. O que não perdemos na guerra, perdemos na viagem. Perdemos tudo, até um pouco de nossa humanidade”. 

Mais conteúdo sobre:
Crise migratóriaHungria

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.