O pior monitor de direitos humanos do mundo

Análise: David Kenner / Foreign Policy

O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h01

Pela primeira vez nos nove meses de levantes na Síria, há testemunhas da repressão imposta pelo presidente Bashar Assad, que, segundo a ONU, matou mais de 5 mil pessoas. À chegada dos observadores da Liga Árabe, no dia 26, milhares de cidadãos que protestavam contra Assad foram às ruas. Em sua primeira declaração, o general sudanês Mohammad Ahmed Mustafa al-Dabi, chefe da missão de observadores, disse que o regime de Assad mostrara "grande cooperação".

Dabi é talvez o chefe mais improvável de uma missão humanitária. Ferrenhamente leal ao presidente Omar Bashir do Sudão, é procurado pelo Tribunal Penal Internacional por genocídio e crimes de guerra em razão das medidas de seu governo em Darfur. O passado de Dabi na tumultuada região sudanesa, onde ele é acusado de presidir a criação das temidas milícias árabes conhecidas como "janjaweed", é suficiente para apavorar qualquer militante do movimento em defesa dos direitos humanos.

O envolvimento de Dabi em Darfur começou em 1999, quatro anos antes de a violência explodir na região. Darfur entrava na guerra entre as comunidades árabe e masalit - a linha divisória que, em alguns anos, se ampliaria numa guerra mais sangrenta entre etnias. Quando a situação escapou do controle, Bashir enviou Dabi para restabelecer a ordem.

Segundo o livro Darfur: A New History of a Long War, de Julie Flint e Alex De Waal, Dabi chegou a Geneina, a capital do Darfur Ocidental, em 9 de fevereiro de 1999, com dois helicópteros de combate e 120 soldados. Ali permaneceu até o final de junho. Durante esse tempo, provocou a inimizade do governador masalit do Sudão Ocidental. Flint e De Waal afirmam: "O Exército vasculhava e desarmava as aldeias, e poucos dias depois os janjaweed entravam. Eles atacavam e pilhavam das 6 horas da manhã às 2 da tarde, a pouca distância do Exército. Desse modo, todo o Dar Masalit foi incendiado".

O papel de Dabi em Darfur é apenas um episódio de uma carreira que se estendeu por dezenas de anos durante os quais protegeu os interesses do regime de Bashir. Ele foi sempre investido de grande autoridade nos cargos mais importantes do regime. No dia em que Bashir tomou o poder por meio de um golpe, em 1989, foi promovido a diretor da inteligência militar. Em agosto de 1995, depois que manifestantes da Universidade de Cartum abalaram o regime, Dabi tornou-se diretor da agência de informações no exterior do Sudão. E enquanto a guerra civil assolava o sul do país, de 1996 a 1999, Dabi foi encarregado de chefiar as operações militares sudanesas.

O que o levou Dabi a ser escolhido como chefe da missão de observadores pela Liga Árabe, na Síria, foi provavelmente sua experiência mais recente. Embaixador do Sudão no Catar de 1999 a 2004, regressou a Doha depois de encerrar seu mandato num cargo relacionado a Darfur - o que o tornou muito conhecido pelo governo do Catar, que tomou a iniciativa de pressionar o regime de Assad entre os países árabes.

Embora a maior parte das atividades de Dabi nos últimos anos tenha ocorrido a portas fechadas, suas escassas declarações à imprensa mostram que ele continua essencialmente leal a Bashir. Em 2006, criticou asperamente a declaração do representante especial da ONU, Jan Pronk, de que o Sudão havia sofrido derrotas em Darfur, definindo-a "falsa e enganosa". Ele aconselhou Pronk a "não se envolver" em questões militares e a "cuidar das suas obrigações".

O passado suspeito de Dabi é apenas uma das ressalvas feitas ao grupo de observadores. Wissam Tarif, o coordenador do grupo dos direitos humanos Avaaz para o mundo árabe, criticou duramente a missão por ser muito reduzida para monitorar a situação em toda a Síria, por não fornecer informações biográficas sobre os observadores às organizações dos direitos humanos e por confiar nas forças de Assad nos seus deslocamentos no país. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.