Planalto/Alan Santos
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O Planalto sob pressão; leia análise

Presenças de Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello na CPI da Covid colocam o núcleo duro do presidente Jair Bolsonaro em alerta

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 12h00

Essa semana será uma daquelas que deixará o Palácio do Planalto dando piruetas de preocupação. O potencial de letalidade dos depoentes na CPI da Covid, já colocou em compasso de alerta o núcleo duro do presidente Jair Bolsonaro. Nada menos do que os trágicos Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores, e Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, serão inquiridos pelos senadores nos próximos dois dias.

Com habeas corpus ou não, o chumbo será pesado! Os valentões do dia 'D' e da hora 'H' apelaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que a corte lhes garanta o direito que, eles próprios, negaram aos brasileiros. Ambos os ex-ministros não terão vida fácil e muitas explicações terão que prestar aos senadores da República. A paciência de integrantes da CPI com a embromação de ex-integrantes do governo Bolsonaro parece que chegou ao limite.

As inesquecíveis baboseiras de Ernesto Araújo - chanceler emérito do bolsonarismo - ainda ecoam vividamente nos ouvidos de boa parte do Senado. O confronto com os senadores, desta vez, não será uma opção astuta. Apelar para os deuses gregos ou dissertar tomos de ininteligíveis prosopopeias em tupi-guarani, enfim, tampouco irão aplacar a ira dos parlamentares. Além de acesso a dados classificados e inéditos, os parlamentares foram municiados com informações diversas - advindos da própria Casa de Rio Branco - sobre a finda gestão do ex-Ernesto à frente do Itamaraty. A enrolação e o silêncio serão, simplesmente, contraproducentes.

Os senadores estão convencidos de que os ataques desferidos ao governo de Pequim, minaram a capacidade do Brasil de acelerar a produção de vacinas em maior escala - hoje a produção do Instituto Butantã está paralisada precisamente por falta de insumos advindos da China. O ex-chanceler terá de explicar, entre tantas coisas, como as agressões aos chineses poderiam ter ajudado o povo brasileiro. Ou explicar, ainda, por que o alinhamento automático ao seu ídolo Donald Trump não trouxe nenhuma vantagem objetiva e real ao país. E há, ainda, a mal explicada estória do milagroso spray!

Já o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, será emparedado pelos senadores com a "mesma misericórdia" que a sua gestão teve para com os brasileiros quando ministro era. A sua fala será decisiva para determinar o grau de responsabilidade do presidente da República - embora isso seja bem óbvio. Além disso, sua gestão terá de responder pela falta de insumos hospitalares básicos que deixaram desamparados milhares de brasileiros.

Mais apreensivo do que o general Pazuello, estará o próprio Exército de Caxias que terá de observar a sua honra ser arrastada na lama. Meter-se em política acaba sempre trazendo faturas indesejadas e esta, em especial, pode ferir de morte a reputação dos verde-oliva.

Pressionado pela CPI, pela ausência de vacinas no país, pelos números incertos da economia, pelo declínio de sua popularidade e pela elevação dos índices de rejeição ao seu governo, o inquilino do Palácio do Planalto passará por um teste que requer nervos de aço.

O curso dos resultados desta semana pode ser decisivo para a estratégia da próxima fase das investigações no âmbito da CPI. O cerco da Comissão pode se expandir para dentro do círculo íntimo do presidente. Como estabilidade emocional não é uma característica que norteia a personalidade presidencial, graves erros poderão ser cometidos em momento crucial do jogo político.

Até o momento - mesmo com "bolsolão" e "tratoraço" -, o governo tem conseguido, aos trancos e barrancos, segurar-se nas cordas. A estratégia de jorrar dinheiro/cargos para segurar a unidade do centro fisiológico como escudo de defesa e de manter ativa a capacidade de mobilização popular nas ruas, têm preservado o governo de maiores avarias no plano político. Mas, com a vacinação praticamente paralisada, sem emprego e sem perspectiva de sair do atoleiro, as coisas podem degringolar a um outro nível de pressão e completamente desfavorável ao governo.

*É cientista político e pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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