O plano autoritário de Erdogan

Presidencialismo do premiê turco se parece mais com o russo do que com o americano

SEYLA, BENHABIB, THE NEW YORK TIMES, É PROFESSOR DE CIÊNCIAS POLÍTICAS, FILOSOFIA EM YALE, MEMBRO DA TRANSATLANTIC ACADEMY , SEYLA, BENHABIB, THE NEW YORK TIMES, É PROFESSOR DE CIÊNCIAS POLÍTICAS, FILOSOFIA EM YALE, MEMBRO DA TRANSATLANTIC ACADEMY , O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2013 | 02h01

A destruição iminente do Parque Gezi, ao lado da Praça Taksim, um espaço cívico com belas fontes de água e flores, tocou num ponto sensível dos turcos porque seria uma medida cuja finalidade é extinguir a antiga e majestosa Istambul para favorecer um consumismo superficial. Os protestos dos últimos nove dias, porém, refletem também uma resistência muito mais profunda contra a direção política que vem assumindo o premiê Recep Tayyip Erdogan.

Nas semanas que precederam as manifestações, a indisposição já era grande pelas novas restrições para servir bebidas alcoólicas em lugares públicos, medidas aprovadas rapidamente pelo Parlamento, mas ainda não transformadas em lei.

Num país onde o alcoolismo é mínimo, o problema, na verdade, é a "guerra cultural" de Erdogan contra as classes seculares. Ouvi muitos turcos, devotos ou não, dizerem que "se consumir álcool é pecado, deixe que eu pague pela minha culpa".

A tentativa de Erdogan de forjar uma moral muçulmana para a maioria é evidente também na posição sobre o aborto que, até recentemente, não havia provocado nenhuma controvérsia política ou teológica. Erdogan sancionou lei que proíbe o aborto no sistema público de saúde. Além dessas medidas, que prejudicarão mais as mulheres pobres do que as ricas, ele também tem feito apelos nacionalistas no sentido de aumentar a população, recomendando que todas as mulheres tenham pelo menos três filhos.

Esse controle da vida privada dos indivíduos ocorre em meio a um ataque flagrante do governo contra as liberdades civis e políticas. As credenciais da Turquia no campo das liberdades de imprensa e artística são péssimas; os direitos de reunião e de protestar também vêm sendo cada vez mais restringidos.

As suas apostas mais altas em matéria política envolvem uma planejada transição do sistema parlamentar para o presidencial. O modelo preconizado por Erdogan daria ao presidente a prerrogativa de dissolver o Parlamento. Com uma reforma da Corte Constitucional, o plano prevê uma reformulação mais ampla do que na época da criação da república secular, em 1923. Se um referendo constitucional for aprovado e Erdogan for eleito presidente no próximo ano, a Turquia terá de conviver com um sistema presidencial carismático e autoritário, muito mais parecido com o da Rússia ou da Venezuela do que com o da França ou dos EUA. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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