Beatriz Bulla/Estadão
Beatriz Bulla/Estadão

O plano de Biden para retribuir o voto negro

Democrata promete montar equipe multirracial e tratar excessos policiais com rigor

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2020 | 03h00

FILADÉLFIA - A rua do centro de convenções da Filadélfia, maior cidade da Pensilvânia, ainda tem marcas da festa de comemoração da vitória de Joe Biden, no dia 7. No asfalto, algumas poucas palavras grafitadas no chão sobreviveram ao movimento dos carros. São elas o equivalente, em inglês, a “Nós, o Povo”, “Mulheres negras” e “BLM”, a sigla do movimento “Vidas Negras Importam”.

O eleitorado negro consagrou Biden como candidato do Partido Democrata em março e, em novembro, foi crucial para que a chapa dele e de Kamala Harris, primeira mulher e primeira negra eleita vice, derrotassem Donald Trump. “Vocês sempre estiveram na minha retaguarda e eu vou estar na de vocês”, disse Biden aos negros, no discurso da vitória.

Do total de negros que votaram, estima-se que 87% tenham escolhido os democratas. A dois meses da posse, Biden promete buscar a igualdade racial em todas as áreas do seu governo, e não apenas responder às demandas levadas por manifestantes às ruas em junho, como a reforma das instituições policiais. No time de especialistas que orientam o presidente eleito sobre resposta à pandemia de coronavírus, Biden escalou uma pesquisadora de Yale especializada em desigualdade no acesso à saúde para colocar no centro do debate o fato de minorias como negros, latinos e indígenas terem sido mais afetadas pela covid-19 no país.

Nas ruas da Filadélfia, as histórias de negros que ajudaram a eleger Biden em um voto contra Trump se acumulam. Charles Young, de 35 anos, diz que se arrependeu de não ter votado em 2016. “Eu não achava que ele seria eleito”, afirma. Em 2020, não quis arriscar e foi às urnas. “Não gosto muito de Biden, mas precisamos de alguma normalidade.” 

Christopher Summers conta que nos seus 30 anos nunca pensou em votar, até ver Trump eleito. “Nunca achei que o voto fizesse a diferença, mas desta vez foi diferente. Problemas como o racismo não começaram com Trump, mas acho que podem melhorar sem ele”, afirma o nutricionista. 

 A desigualdade racial é uma das quatro prioridades estabelecidas pelo democrata para o início de sua gestão junto de combate à pandemia, recuperação econômica e resposta às mudanças climáticas. Ele promete remover barreiras que dificultam a participação de negros na economia, através de medidas como crédito para pequenos empreendedores, plano habitacional com foco em moradia a preço acessível para famílias negras e programas de treinamento e acesso ao ensino superior para famílias negras, por exemplo. 

Para atender à demanda dos manifestantes por uma reforma nos sistemas de Justiça e polícia dos EUA, Biden diz que irá trabalhar com o Congresso para aprovar legislação que proíba o estrangulamento como tática de abordagem policial. Ainda no Congresso, ele promete criar uma comissão nacional de supervisão da polícia, impedir a transferência de armas de guerra para as polícias e criar um modelo de uso de força padrão no país.

Balanço

Ainda não há números oficiais sobre a divisão do eleitorado no comparecimento às urnas, mas estimativas preliminares mostram que, apesar de Trump ter ganhado votos entre os homens negros em comparação com 2016, o apoio dessa parcela da população a Biden foi crucial em locais decisivos para o desfecho eleitoral, como a Pensilvânia. 

A vitória no Estado deu ao democrata mais do que os 270 votos necessários no colégio eleitoral. Por cinco dias seguidos, o centro da Filadélfia ficou interditado e foi cenário de transmissões ao vivo das TVs do mundo todo. Primeiro, advogados e apoiadores de Trump ocuparam o espaço e, em frente ao centro onde cédulas eram contabilizadas, pediram a suspensão da contagem de votos. Conforme a apuração mostrava a força de Biden, o local virou palco dos apoiadores do democrata que se reuniram em festa, com música e dança.

Moe Sow, de 27 anos, foi um dos que foi às ruas festejar. “Era muita gente feliz”, afirma. Ele não votou na eleição passada e, desta vez, se viu com apenas uma opção. “Em quem eu votei? Olhe para mim e diga qual é a escolha óbvia: Joe Biden. Como parte da minoria negra da população, eu quero que o novo governo coloque um basta nos radicais, que proteja as minorias’, afirma. 

Sow, que nasceu em Guiné, mas cresceu nos EUA, é cético sobre as mudanças que Biden poderá implementar, mas acredita que ter Kamala Harris como vice é um forte sinal de que o novo governo irá se preocupar com igualdade racial. 

“Eu não me lembro de ter visto na minha vida uma reação como a que vi aqui. As pessoas ficaram muito felizes”, afirma Jaqueline Harris, advogada de imigração na Pensilvânia. “O mote da campanha de Trump é ‘torne a América grande de novo’. Mas a visão dele sobre o que é tornar o país ‘grande’ não atende o país. Não é uma visão inclusiva, atende aos brancos e ricos”, afirma Jaqueline.

A NAACP, mais tradicional organização nacional pelos direitos de negros nos EUA, gastou mais de US$ 15 milhões em táticas para estimular o voto do eleitorado negro em dez Estados, incluindo Michigan, Pensilvânia, Geórgia, Flórida e Wisconsin. 

A vitória de Biden nas eleições deste ano é resultado de um conjunto de outros fatores, como o avanço democrata nos subúrbios de grandes cidades com apoio das mulheres, uma margem de apoio maior entre o operariado branco do que o que Hillary Clinton tinha em 2016, o impulso dos jovens e o eleitorado negro em grandes cidades e subúrbios. 

Em Estados cruciais, como a Pensilvânia, a virada de Biden aconteceu quando as cédulas enviadas pelo correio começaram a ser apuradas em áreas predominantemente negras. Biden recebeu 91% dos votos dos homens negros no Estado, enquanto Trump teve 8%. Em 2016, Hillary teve 83% dos votos de eleitores homens negros, enquanto Trump teve 14%. 

 

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