O plano perfeito do ''''presidente perpétuo''''

Vladimir Putin deve deixar o cargo em março de 2008 e isso não lhe dá o menor prazer. Ele não só se saiu bem nessa função, como os russos o amam (tem 80% de aprovação). E Putin ama sua pátria. De bom grado, ele se vê presidente perpétuo - como um czar ou Leonid Brejnev.Mas a Rússia tem uma Constituição e Putin a respeita. No entanto, ele não se vê como um "presidente aposentado" plantando hortaliças e escrevendo suas memórias.Além de respeitar a Constituição, Putin é muito engenhoso. Tudo indica que ele descobriu um truque que lhe permitirá ao mesmo tempo respeitar a lei e permanecer no comando. Ele esboçou seu plano segunda-feira, ao receber no Kremlin o partido Rússia Unida, ao qual disse que aceitaria liderar a lista para as eleições legislativas de 2 de dezembro. Boa escolha: a vitória do Rússia Unida seria esmagadora na medida em que a oposição tornou-se, durante o governo de Putin, surda, muda, maneta e perneta.O presidente que o suceder em março simplesmente terá de nomeá-lo primeiro-ministro. Em seguida, Putin, como primeiro-ministro, fará uma reforma da Constituição que facilitará sua volta à presidência quatro anos depois.Para isso, contudo, será preciso que o futuro presidente tenha uma espinha suficientemente flexível a essa acrobacia. E também nisso Putin parece ter previsto tudo: há um mês, ele surpreendeu o mundo mudando abruptamente o premiê e nomeando o desconhecido Viktor Zubkov.Esse homem, de 67 anos, é, desde sempre, um aliado de Putin. Ele pertence ao "clã de São Petersburgo", a cidade de Putin. Segundo Putin, é "um homem sério, capaz, eficaz, moderno e dedicado." Enfim, para surpresa geral, mal havia sido nomeado primeiro-ministro, Zubkov deu a entender que concorrerá nas eleições de março.Zubkov revelou-se, pois, muito superior aos outros protegidos de Putin - como, por exemplo, Serguei Ivanov, atual vice-presidente, que parecia ser o escolhido, mas é talvez um pouco colérico, e, até, que horror, indisciplinado.Portanto, a peça já está escrita. Em dezembro, Putin leva à vitória o Rússia Unida. Em março, Zubkov é eleito presidente. E a primeira decisão do novo presidente será nomear Putin premiê. Alguns impertinentes levantam a seguinte questão: "Suponhamos que Zubkov, tão amável, se revolte e se recuse a nomear Putin?" A resposta foi prontamente fornecida por um jornalista (irônico, talvez). "Zubkov que se cuide: um dossiê sobre ele encerrado em algum cofre-forte do Kremlin não custaria a aparecer!"É preciso dizer que na Rússia, tanto na dos czares como na de Stalin, existe um senso muito forte de "Razão de Estado": Catarina, a Grande (1729-1796), estava perdendo os cabelos. Ela convocou então ao Kremlin um cabeleireiro que lhe providenciou um cabelo falso.O cabeleireiro ficou orgulhoso do seu feito. Infelizmente, logo em seguida, ele foi encarcerado pelo resto da vida numa masmorra porque a czarina não teria gostado nem um pouco se ele saísse tagarelando e contasse aos outros que a czarina usava peruca. *Gilles Lapouge é correspondente em Paris

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.