O poder da internet contra o último ditador da Europa

Milhares de pessoas tomam ruas da Bielo-Rússia pedindo a saída de Lukashenko do poder

Christian Neef, Der Spiegel, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2011 | 00h00

O fim da era Alexander Lukashenko, o ditador da Bielo-Rússia, parece próximo, e milhares de pessoas tomam as ruas em Minsk para protestar contra a crise econômica no país. Os manifestantes, usuários da internet, descobrem maneiras cada vez mais criativas para manifestar a dissensão, mas Lukashenko responde com a violência.

Três mulheres estão sentadas num banco perto de uma agência de câmbio numa grande loja de departamentos de Minsk fazendo palavras cruzadas, enquanto esperam para comprar dólares ou euros. "Temos uma lista de espera", diz uma delas. "A lista tem 310 pessoas, e todas elas querem trocar seus rublos. Eu me inscrevi em abril. Estamos em julho e deveria ser a minha vez. Mas estou sentada aqui faz dias, e não apareceu ainda ninguém para vender dólares."

Em maio, a Bielo-Rússia desvalorizou sua moeda em 36%. No mercado negro, onde o rublo há tempo não vale grande coisa, 1 custa 9 mil rublos - mais do dobro do que custava no início do ano. As pessoas procuram refúgio nas moedas fortes - quando conseguem.

Reino. Uma crise dramática instalou-se no bizarro reino de Lukashenko. As exportações despencaram, a dívida externa é enorme e os preços estão explodindo. As mulheres sentadas perto da agência de câmbio na loja de departamentos de Minsk parecem confirmar todos os preconceitos mais comuns a respeito dos cerca de 9 milhões de habitantes da Bielo-Rússia: plácidos, mesmo quando duramente testados pelo destino, passivos, subservientes para com as autoridades e completamente apolíticos. Mas esta imagem já não corresponde à realidade. Os próprios bielo-russos agora tentam exercer a desobediência civil.

Durante semanas, milhares de pessoas vão às ruas para manifestar sua insatisfação com o regime de Lukashenko, mas o fazem quase como uma brincadeira. Elas se reúnem nas praças públicas, aparentemente de maneira espontânea, andam em grupos pelos parques, de repente começam a aplaudir e organizam carreatas pacíficas. É a versão bielo-russa das manifestações relâmpago.

Lukashenko governa incontestado há 17 anos, durante os quais eliminou a oposição política e a imprensa livre. Mas, nas últimas semanas, parece bastante aborrecido com os protestos. Na realidade, Lukashenko está tão fora de si que agora manda prender ônibus lotados de pessoas quase todos os dias, sem nenhuma justificativa legal. Quando as pessoas na Bielo-Rússia "deixaram se ser presas às centenas, para serem presas aos milhares, foi o sinal do começo de um processo irreversível", afirma o cientista político ucraniano Vladimir Gorbach.

O jornal de Moscou Nezavisimaya Gazeta também escreve que o "fim da era Lukashenko" se aproxima. Na esteira das revoluções na Tunísia, Egito e Líbia, veremos agora o crepúsculo de um regime que persiste há muitos anos, situado entre as democracias ocidentais europeias e a nova Rússia?

O presidente Lukashenko, de 56 anos - que era comissário político de uma companhia de tanques durante a era soviética e posteriormente diretor de uma fazenda coletiva -, foi reeleito para outro mandato em dezembro, mas aparentemente as eleições foram fraudadas. Com a ajuda da polícia e das unidades de segurança do Estado, ele conseguiu suprimir brutalmente a oposição, que convocou seus seguidores a ir às ruas depois do fechamento das sessões de votação. A repressão foi facilitada pelo fato de que os adversários do regime, que se organizam em partidos muito pequenos, e incluem ex-altos funcionários do governo, estão divididos internamente e têm pouco apoio entre a população.

Por outro lado, o presidente comprou a aprovação de muitos bielo-russos com generosos aumentos dos salários e das aposentadorias.

Segurança. O acordo tácito previa que as pessoas poderiam desfrutar da segurança econômica enquanto permanecessem fora da política. Depois das eleições, Lukashenko vingou-se dos adversários sem encontrar qualquer resistência por parte do público, pelo menos de início. Eles foram presos com a acusação de ter incitado a "agitação em massa". Vários ex-candidatos da oposição à presidência agora estão na prisão.

Mas nos primeiros meses do ano começou uma crise econômica. A economia da Bielo-Rússia, que já sofria com os altos preços do petróleo e do gás natural da Rússia, ficou sem dinheiro, e o irresponsável aumento dos salários determinado por Lukashenko só contribuiu para agravar a situação. Como o país importa muito mais do que exporta, sua balança comercial entrou em colapso.

O que não aconteceu depois das eleições de dezembro está acontecendo agora, seis meses mais tarde. A população está se revoltando. O Instituto Independente de Estudos Socioeconômicos e Políticos, que hoje atua na capital lituana de Vilnius por ter sido expulso da Bielo-Rússia, documentou a mudança radical na mentalidade das pessoas com uma detalhada pesquisa de opinião.

Esta conclui que o numero de pessoas insatisfeitas com sua situação material triplicou desde março. Aproximadamente 73% dos cidadãos queixam-se de que sua qualidade de vida piorou drasticamente, e um em cada dois atribui o fato ao presidente. Dois terços das pessoas entrevistadas afirmam que "não é bom para o país" que Lukashenko agora detenha o poder absoluto.

A mudança radical da opinião pública é tão impressionante porque mostra que as críticas ao ditador chegaram à classe média. Este seria o momento ideal para um clássico movimento de oposição. Mas os antigos adversários do regime estão paralisados desde as represálias ocorridas após a eleição. Agora, um grupo totalmente novo usa a internet para organizar os protestos contra o governo.

Foi este grupo que estragou o dia da independência do país, no dia 3. Enquanto o presidente assistia a uma parada militar no centro de Minsk, centenas de manifestantes desfilaram pelas ruas batendo palmas de maneira desafiadora, atendendo a uma convocação para os protestos na internet.

Para que as forças de segurança localizassem rapidamente os perturbadores da ordem, Lukashenko proibiu os aplausos durante seu discurso, tornando a cerimônia oficial um evento estranhamente silencioso.

Um blogueiro que se identifica como "nattuzi-lu" escreveu que foi despertado às 8h30 por fortes batidas na porta. "Três policiais ordenaram que fechasse todas as janelas e a porta que dá para a sacada, e me proibiram de tirar fotos de quem passava pela rua." Naquele dia, foram detidas cerca de 400 pessoas, multadas ou presas sob a acusação de ter tomado parte de "ações de massa não autorizadas".

Repressão. As cenas absurdas repetiram-se na quarta-feira da semana passada. Desta vez, os militantes da internet convocaram os manifestantes para caminhar casualmente desde vários bairros de Minsk até o centro da cidade. Horas antes, a polícia e as forças de segurança do Estado fecharam todas as saídas do metrô e posicionaram carros nos pátios atrás dos edifícios. Mais uma vez, centenas de pessoas foram presas. No seu site na internet, os usuários das redes sociais pediram ao presidente que parasse de dar "ordens criminosas" às forças de segurança.

Paranoico, o presidente acredita que os protestos fazem parte de uma "guerra da informação" contra ele, e os manifestantes na realidade estão sendo pagos pelo Ocidente.

O ex-líder da Alemanha Oriental Erich Honecker disse que coisas parecidas com estas ocorriam, embora talvez de maneira não tão cruel, nos últimos dias da Alemanha Oriental socialista. Artigos nos jornais de Minsk agora lembram os que apareciam nas publicações de Berlim Oriental, no outono de 1989, pouco antes da queda do Muro de Berlim. O temido órgão oficial de Lukashenko estampa quase todos os dias tiradas contra o "Ocidente desumano" e seu fracassado modelo econômico, pedindo ao mesmo tempo a "autossuficiência" e estimulando os trabalhadores a intensificar seus esforços.

Será que Lukashenko conseguirá deter o declínio de sua economia com empréstimos externos? Seu destino depende da resposta a esta pergunta. A Comunidade Econômica Eurasiática e a Rússia prometeram recursos, mas a grande vizinha a leste da Bielo-Rússia agora está perdendo a paciência com Lukashenko. Moscou resolveu vincular seu financiamento a Minsk a importantes concessões. Na semana passada, o "chairman" da Gazprom, Alexei Miller, falou com Lukashenko para informá-lo de que pretende adquirir as ações bielo-russas restantes da operadora do oleoduto, a Beltransgas.

O último ditador da Europa teve o apoio da população durante muito tempo, afirmam especialistas, e poderia ter usado sua popularidade para investir nas reformas econômicas. Mas agora perdeu irrevogavelmente a oportunidade de transformar legitimamente seu sistema.

Lukashenko, que cresceu numa aldeia sem pai nem mãe, e mais tarde apaixonou-se completamente pelo poder, está perdendo cada vez mais o contato com a realidade, afirma seu biógrafo, Valery Karbalevich. "Ele não sabe mais o que acontece em seu país. Mas a ignorância causa o medo." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É REPÓRTER

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