O poder da Irmandade no Parlamento do Egito

Grupo religioso crê que os egípcios associarão 'projeto islâmico' ao êxito econômico caso o país se aproxime do modelo turco, em uma espécie de sonho calvinista árabe

É ANALISTA DO BROOKINGS INSTITUTE, SHADI, HAMID, FOREIGN AFFAIRS, É ANALISTA DO BROOKINGS INSTITUTE, SHADI, HAMID, FOREIGN AFFAIRS, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2012 | 03h05

Saber o que os islâmicos desejam agora se tornou urgente, graças às recentes eleições no Egito, que devem dar ao braço político da Irmandade Muçulmana, o Partido Justiça e Liberdade (PJL), mais de 40% dos assentos no Parlamento. Apesar da percepção de que a Irmandade é uma organização rígida e radical, o fato é que nem os islâmicos estão inteiramente seguros do que querem.

Observadores ocidentais concentram excessiva atenção na ideologia da Irmandade. No caso da maioria dos partidos políticos egípcios, incluindo o PJL, a crença raramente é prognóstico preciso de seu comportamento. Como afirmei num artigo na edição de maio/junho de 2011 da Foreign Affairs (A ascensão dos islâmicos), a Irmandade Muçulmana, longe de ser uma entidade ideologicamente inflexível, é essencialmente política e comprometida com os ideais de atender aos interesses da organização. Isso a torna muito mais preparada para mudanças do que muita gente hoje imagina.

Na verdade, o islamismo da Irmandade é difícil de ser detectado pelas políticas proclamadas por ela, muitas sem relação com a lei islâmica. Os dias da década de 80, quando o grupo pregava a implementação da sharia por meio da luta armada, há muito tempo se tornaram passado. O Islã é mais bem compreendido como motivador das ações da Irmandade, mais do que o seu produto. Como se trata de um movimento religioso com um amplo currículo educacional e uma estrutura de membros complexa de vários níveis, cada "irmão", por definição, é religiosamente conservador. Os membros da entidade não sentem necessidade de provar sua identidade religiosa.

Claro que há uma facção mais intransigente ganhando espaço no Cairo. Com as eleições, fica evidente que a Irmandade não tem mais o monopólio dos votos dos egípcios conservadores - os salafistas, ainda mais radicais e defensores de uma interpretação literal da lei islâmica, constituirão o segundo maior bloco no Parlamento, com cerca de 20% das cadeiras. Tendo rejeitado há muito tempo a política por razões teológicas e práticas, eles são principiantes nessa área. Nisso reside o seu apelo; no momento, eles parecem inconscientes dos compromissos inerentes à vida política.

Enquanto os salafistas mostram-se excessivamente impacientes, a Irmandade aposta no longo prazo. Seus membros procuram dar a impressão de que não têm pressa, o que, durante os anos de repressão do governo do presidente Hosni Mubarak, era visto erroneamente como concordância e resignação. Quando você acredita que a história está do seu lado, tudo o que tem a fazer é esperar o momento certo. E este momento parece ter chegado para a Irmandade. A questão é o que fazer com ele.

Economia e fé. No passado, a Irmandade distanciou-se dos islâmicos turcos liderados por Recep Tayyip Erdogan, considerando-os desleais aos preceitos islâmicos, transformados em pouco mais do que democratas conservadores ao estilo europeu. Mas, tendo sobrevivido à repressão imposta por Mubarak com uma real chance de governar, a Irmandade tem voltado cada vez mais os olhos para o modelo turco.

O que aprendeu do Partido Desenvolvimento e Justiça, de Erdogan, é que um crescimento econômico vigoroso torna tudo mais fácil. Se você melhora o padrão de vida das pessoas, elas estarão mais predispostas a ouvi-lo em assuntos não econômicos. E talvez mais importante, a Irmandade acredita que os egípcios associarão o sucesso econômico ao "projeto islâmico" - uma espécie de sonho calvinista árabe.

Para isso, ela precisa primeiro ser capaz de conduzir os assuntos econômicos do Egito. Portanto, não é por acaso que o grupo considera altamente prioritário reformular as decadentes estruturas políticas do país.

Com base nas estruturas legais e constitucionais vigentes, o Egito continua com um sistema presidencial exacerbado e com um Legislativo muito fraco. Como o maior bloco representado no Parlamento, a Irmandade pretende fazer pressão no sentido de um sistema parlamentar puro, com o presidente tendo uma função amplamente cerimonial. Em parte, trata-se de um evidente interesse pessoal. A democracia parlamentar - sistema que recompensa a disciplina partidária, as negociações sub-reptícias e as coalizões flexíveis - ajusta-se sob medida a grupos como a Irmandade, que parecem ter prazer nas manobras políticas sem muitas reservas.

Um Parlamento mais sólido daria à Irmandade uma plataforma poderosa para desafiar o conselho militar no governo, que parece cada vez menos disposto a se desvencilhar do poder. Parte disso, contudo, vai além dos objetivos no curto prazo. Em razão de décadas de repressão durante três presidentes sucessivos, a Irmandade Muçulmana teme que um ditador possa surgir novamente.

Com efeito, como organização hierárquica e bastante institucionalizada, ela sempre deu prioridade às estruturas, mais do que aos indivíduos. É revelador o fato de que, nas últimas décadas, a Irmandade não tenha conseguido produzir líderes carismáticos no plano nacional. Assim, no campo da política egípcia, os "irmãos" também respeitam as instituições.

A presença dos salafistas, entretanto, ameaça complicar as coisas. Se a Irmandade perceber que precisa se mover para o centro - de modo a tranquilizar os liberais mais céticos e a comunidade internacional - ela o fará. E se sentir que deve se inclinar para a direita - para competir com os salafistas - então também mudará. Mas poderá agir de ambas maneiras, concedendo algumas coisas para os liberais e, ao mesmo tempo, reafirmando suas credenciais religiosas para aglutinar sua base conservadora.

Por escolha ou necessidade, esse parece ser o caminho escolhido. Nos vilarejos da zona rural, mais conservadores, onde enfrenta os salafistas, os irmãos muçulmanos lembram os eleitores da sua história de perseguição e retornam à retórica religiosa feroz. No Cairo, na mídia, nas reuniões com delegações de políticos e investidores visitantes, a Irmandade mostra sua face mais sensível. Alguns críticos da entidade chamam isso de "dupla retórica". Para outros, é política. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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