O poder da política externa positiva

A criação de novas relações entre os países é o que pode garantir as bases do mundo liberal em que vivemos

FAREED ZAKARIA*, THE WASHINGTON POST

01 de fevereiro de 2015 | 02h04

A viagem do presidente americano, Barack Obama, à Índia foi estrategicamente importante, simbolicamente relevante e habilmente executada. A visita, no entanto, coincidiu com uma tempestade de neve no nordeste dos Estados Unidos, de maneira que foi difícil conseguir espaço na TV e na imprensa escrita. Na Índia, ao contrário, os jornais diariamente dedicaram páginas à visita e a cobertura da TV foi ampla. A viagem do presidente chamou atenção até do governo chinês, que condenou a nova amizade.

A viagem de Obama coloca em realce uma oportunidade e um problema. A política externa tem dois aspectos - um negativo e outro positivo. A política externa negativa implica evitar que coisas ruins aconteçam - enfrentar riscos e os maus elementos. É isto que produz matérias de capa e gera espaço em programas noturnos da TV. É importante, mas na verdade é apenas um aspecto de um futuro em segurança dos EUA - a proteção do país a partir dos aspectos negativos.

A política externa positiva concentra-se nas vantagens. Implica a criação de novas relações, a expansão de mercados e oportunidades, o fortalecimento de alianças e valores. A política externa positiva garante as bases da ordem mundial liberal em que vivemos. O governo Truman conteve a ameaça soviética, mas também construiu a comunidade de nações livres por meio do sistema de Bretton Woods e outras instituições do gênero.

A viagem de Obama à Índia foi um exemplo perfeito de política externa positiva. Os EUA vêm forjando novos laços com a Índia desde o governo Clinton, adotando uma estratégia política estratégica e bipartidária. A decisão de Obama de participar dos festejos do Dia da República da Índia - quando os indianos comemoram a sua Constituição - foi o clímax da viagem.

A Índia era um país instintivamente antiamericano que, nos últimos 30 anos, se tornou cada vez mais pró-americano. A sociedade indiana sempre foi atraída pelos EUA, mas nos últimos anos o governo indiano vem se afastando da sua ideologia enraizada do "não alinhamento" e se aproximando de algo bem mais pragmático. O novo premiê da Índia, Narendra Modi, tem conduzido o seu governo numa direção inequivocamente pró-americana.

A aproximação da Índia com os EUA resultará em grandes benefícios para Washington e o mundo. Com 1,2 bilhão de habitantes, a Índia provavelmente se tornará o próximo Golias global. E, embora não cresça tão rápido quanto a China, diante do seu crescimento de 7% nas próximas duas décadas o país terá uma grande influência nos conselhos de poder do mundo.

Exemplo. A Índia é o mais importante exemplo dos benefícios da política externa positiva, mas há outros também muito importantes. A Indonésia é a próxima maior democracia em termos de população - com a maior população muçulmana do mundo. Neste caso também os EUA vêm aprofundando suas relações com um país que outrora suspeitava de Washington, mas hoje está muito mais receptivo - particularmente a Obama.

A oportunidade mais extraordinária está no México. Há 30 anos o México era definido pelo seu antiamericanismo. Os políticos comumente culpavam o governo americano e a CIA por todos os seus males, desde os distúrbios e a desordem no país até as más condições do tempo. E não era apenas o regime - a população também compartilhava as suspeitas dos que eram contra os imperialistas ianques.

Hoje o México é um país diferente. Sua economia está ligada de modo insolúvel ao vizinho do norte, seus políticos consideram os EUA seu parceiro natural e a cultura sob muitos aspectos está americanizada.

Apesar da atitude de desdém de muitos políticos e diplomatas americanos quando se referem à questão da imigração mexicana, os diplomatas e políticos do México sabem que os interesses do seu país estão fortemente alinhados com os de Washington, e assim seguem a via ética e diplomática.

As vantagens do sucesso são significativas. Se os EUA se associarem com Índia e Indonésia (além da sua aliança com o Japão), é muito mais provável que a Ásia e o mundo sejam caracterizados pelo livre comércio, o multilateralismo e sistemas baseados em regras. As relações mais sólidas com a Indonésia terão um impacto sobre um debate mais amplo envolvendo a reforma no mundo muçulmanos. E vínculos mais consistentes com México e Canadá criarão uma união política e econômica americana mais interconectada, vibrante e poderosa do que qualquer outro bloco regional do mundo.

Mas tudo isto requer tempo e trabalho. Levar estes países a realizar reformas é uma tarefa difícil. Ser visto continua vital, especialmente na Ásia (Obama teve de cancelar duas viagens à Indonésia). O constante rufar dos tambores para solucionar crises que eclodem - agora, de algum modo, Washington terá de socorrer e estabilizar o Iêmen - não reconhece "os custos de oportunidade". Cada dia gasto com mais um bando de renegados no Oriente Médio é um dia que não pode ser despendido na Índia ou o México.

O mundo oferece hoje oportunidades notáveis para os EUA. Ásia, América Latina e África vêm seguindo na direção certa. Mas estas não são tendências automáticas ou autônomas. É necessário envolvimento e determinação da parte de Washington. E também um clima político e de mídia em que o urgente nem sempre supera o importante. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA

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