O poder de um cartel da droga na Venezuela

A denúncia do envolvimento de autoridades com o narcotráfico é um fator que tornará muito mais difícil qualquer mudança política ou econômica

JACKSON, DIEHL, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2015 | 02h04

A Venezuela vive às voltas com a mais alta inflação do mundo, tem a segunda taxa mais alta de homicídios e uma escassez mortificante de alimentos, remédios e gêneros de primeira necessidade. Seu governo autoritário mantém aproximadamente 70 prisioneiros políticos - entre os quais o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, e o importante líder da oposição Leopoldo López - e é acusado por grupos de defesa dos direitos humanos de detenções ilegais, tortura e repressão da mídia independente.

Tudo isso é bastante conhecido a esta altura, e está finalmente ganhando alguma atenção de líderes latino-americanos que durante anos fizeram o possível para enaltecer ou ignorar Hugo Chávez e sua "revolução bolivariana".

O que é menos compreendido é o fator complicador que tornará muito mais difícil qualquer mudança política ou econômica nesse Estado decrépito: o regime de Hugo Chávez, chefiado desde sua morte por Nicolás Maduro, não abriga apenas um bando de socialistas excêntricos, mas também um dos maiores cartéis de drogas do mundo.

Desde que militares colombianos capturaram o laptop de um líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), há oito anos, é fato sabido que Chávez deu refúgio a narcoguerrilheiros colombianos e permitiu a eles traficar cocaína da Venezuela para os Estados Unidos com a ajuda do Exército venezuelano.

Mas quando um ex-segurança de Chávez desertou para os EUA, em janeiro, a escala do que é conhecido como o cartel de Los Soles começou a ficar publicamente conhecida.

Segundo várias reportagens da mídia, Leamsy Salazar vem cooperando com procuradores federais americanos que estão montando um caso criminal contra vários generais e funcionários de alto escalão do governo venezuelano. O principal deles é o homem que Salazar começou a proteger após a morte de Chávez: Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional e segundo membro mais poderoso do regime, depois de Maduro.

Um dia depois da chegada de Salazar a Washington, o jornal espanhol ABC publicou uma matéria detalhando o caso emergente contra Cabello e, no mês passado, o repórter Emili Blasco, do ABC, deu sequência com um livro expondo as afirmações de Salazar e de outros desertores segundo os quais o regime comunista de Cuba e a milícia libanesa Hezbollah estão conectados ao tráfico.

Isso foi seguido por um extenso relatório no Wall Street Journal na semana passada dizendo que o cartel de Cabello havia transformado a Venezuela num "centro de distribuição global do tráfico de cocaína e de lavagem de dinheiro".

Cabello respondeu com a tática mais familiar do regime: um ataque à imprensa.

No mês passado, ele moveu ações por difamação contra 22 jornalistas de 3 organizações noticiosas venezuelanas que publicaram matérias sobre a reportagem de Blasco, incluindo El Nacional, o único jornal venezuelano que restou no país. No começo de maio, um juiz aplicou a pena que Cabello buscava sem se dar o trabalho de fazer um julgamento; há muito que o regime se apropriou do Judiciário. Os jornalistas foram proibidos de deixar o país e têm ordens de comparecer semanalmente ao tribunal.

A ordem chegou quando o proprietário de El Nacional, Miguel Henrique Otero, estava em viagem ao exterior. Na semana passada, ele voou para Washington em busca de apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Segundo ele relatou, o regime está desesperado para esquivar-se das alegações de tráfico de drogas, pois elas poderiam destruir o que resta de sua credibilidade internacional. Embora esquerdistas na América Latina e nos EUA tenham se mostrado dispostos a ignorar as investidas contra a oposição e a mídia, "ninguém quer ser associado a traficantes de drogas", disse Otero.

"Esse é um golpe muito sério no regime", disse. "A única maneira de combatê-lo é alegar que se trata de uma conspiração direitista comandada de Miami e Madri, e dizer que a imprensa que reportou as acusações faz parte disso." Não está claro se e quando os procuradores americanos farão acusações contra Cabello e seus parceiros, mas prisões parecem improváveis. Uma tentativa americana de capturar um general de alta patente, o ex-chefe da inteligência militar Hugo Carvajal, em Aruba, no ano passado, fracassou. Mas o vazamento do caso do cartel e quaisquer acusações, se forem tornadas públicas, poderiam dividir e também isolar o regime.

Cabello lidera uma das três "famílias" que, segundo Otero, estão disputando o legado de Chávez; as outras são chefiadas por Maduro e pela filha de Chávez. Somente Cabello está ligado ao tráfico de cocaína, e há elementos sem relação com as drogas na liderança militar.

Como muitos líderes de oposição, Otero espera que a Venezuela possa resolver sua crise pelo caminho da democracia. Se uma eleição para a Assembleia Nacional programada para este ano for realizada e limpa, a oposição deve ganhar facilmente. Mas o mandato de Maduro se estende até 2019 - e as pessoas do regime ligadas ao tráfico de drogas, vulneráveis à perseguição americana, não estarão dispostas a entregar o poder. Elementos rivais do regime ou militares poderiam agir contra elas? Otero diz: "A situação é tão dramática e catastrófica que é grande a probabilidade de algum tipo de evento ocorrer". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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