O poder do particular

Show de Springsteen na Europa é um exemplo para políticos e líderes empresariais de que tradições regionais atraem mais

É COLUNISTA, DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2012 | 03h03

Dizem que os fãs não imaginam o que é estar num show de Bruce Springsteen até irem a uma apresentação dele na Europa e, por isso, eu e alguns amigos decidimos deixar de lado a sanidade financeira e viajamos atrás dele na turnê que passou por Espanha e França. Em Madri, por exemplo, fomos recompensados com um show de 3 horas e 48 minutos, possivelmente o mais longo já feito por ele e certamente um dos melhores já vistos. Mas aquilo que mais me fascinou foi o público.

Nos Estados Unidos, os fãs de Springsteen estão se aproximando da idade de aposentadoria, se é que ainda não se aposentaram. Na Europa, os fãs são muito mais jovens. A paixão entre os devotos americanos é frenética, beirando o culto. A intensidade do público europeu consegue ser ainda maior. Os europeus produzem uma manifestação de ruído e movimento que às vezes chega a ser mais impressionante do que aquilo que ocorre no palco.

Ali estava o público da Península Ibérica cantando palavra por palavra as letras sobre a Highway 9, Greasy Lake ou alguma outra parte exótica de Jersey Shore. Eles erguiam cartazes pedindo canções dos rincões mais distintamente americanos do repertório de Springsteen.

O momento mais curioso ocorreu na metade do show, quando olhei para o estádio e vi 56 mil espanhóis ensandecidos erguendo os punhos no ar em uníssono e berrando com toda a força, "I was born in the USA!/ I was born in the USA!" (Nasci nos EUA!) Teria ocorrido aos fãs naquele momento que, na verdade, nenhum deles tinha nascido nos EUA?

Como era possível que tantas pessoas de um lugar tão distante se sentissem tão comprometidas pessoalmente com a paisagem da desindustrialização de New Jersey até Nebraska, o mundo a respeito do qual Springsteen canta? Como poderiam se sentir tão enfeitiçados pela mera menção das Meadowlands ou do Stone Pony, uma casa noturna de Asbury Park, N.J.? Minha teoria mais caprichada é a seguinte: quando somos crianças, inventamos detalhados mundos imaginários que os psicólogos infantis chamam de "paracosmos". Essas paisagens, que às vezes têm até criaturas imaginárias, servem como ajuda para que nos orientemos na realidade.

São comunidades mentais estruturadas que nos ajudam a compreender o mundo maior.

Levamos conosco essa necessidade de paracosmos para a idade adulta. Me parece paradoxal o fato de os artistas que têm o maior apelo global serem também aqueles que criaram as histórias e paisagens mais locais e distintas. Milhões de pessoas em todo o mundo sentem-se fortemente ligadas à versão de Compton apresentada por Tupac Shakur, à versão de um internato britânico mostrada por J.K. Rowling, ou à versão de uma mansão edwardiana narrada em Memórias de Brideshead.

Milhões de pessoas conhecem os contornos dessas paisagens remotas, seus personagens típicos, tramas, corrupções e desafios. Quando alguém constrói uma paisagem moral apaixonada e altamente localizada, o público se sente atraído.

No decorrer dos anos, Springsteen construiu o próprio paracosmo, com sua coleção de desocupados, fechamentos de fábricas, traços de um catolicismo torturado e momentos de extática fuga. A construção desse projeto exigiu um ato de compromisso.

O momento mais interessante da carreira de Springsteen ocorreu após o sucesso de Born to Run. Teria sido uma escolha natural valer-se do sucesso daquele álbum, repetindo seu exuberante estilo que lembra uma parede sonora, expandir as fronteiras para além de New Jersey e atrair novos fãs. Em vez disso, Springsteen foi mais fundo nas próprias raízes e criou Darkness on the Edge of Town, que é mais localizado, mais solitário e mais avulso.

Na época, essa decisão deve ter parecido insana do ponto de vista comercial. Mas um Springsteen mais facilmente acessível, distante de suas raízes no soul, suas obsessões de infância e o tão repetido idioma dos carros e estradas, teria diluído a própria força. Em vez disso, ele processou novos temas na linguagem de sua antiga tradição, e agora temos jovens adultos que enchem os estádios, conhecendo de cor a letra de canções compostas 20 anos antes de eles terem nascido, descrevendo lugares que eles nunca verão.

Isso nos faz reconhecer o tremendo poder da particularidade. Quando sua identidade é formada por fronteiras definidas, quando nossa origem é um lugar específico, quando encarnamos uma tradição musical distinta, se nossas preocupações são expressadas por meio de um paracosmo específico, alcançamos mais profundidade e definição do que seria possível se tivéssemos crescido nas dispersas redes do pluralismo e do ecletismo, navegando de um ponto ao outro, saboreando um estilo de cada vez, tendo a identidade formada por fronteiras fluidas, ou mesmo desprovida delas.

Talvez seja por isso que as bandas de rock mais jovens mal conseguem encher os estádios, enquanto bandas mais antigas e geograficamente definidas, como U2, Springsteen e Beach Boys, esgotam seus ingressos ano após ano. A experiência toda me dá vontade de puxar de lado os políticos e líderes empresariais, e talvez todas as demais pessoas, para dar-lhes um conselho bem intencionado: não tentem agradar a todos. Não finjam fazer parte de cada uma das comunidades visitadas. Não tentem ser cidadãos de uma comunidade global artificial. Aprofundem-se nas próprias tradições. Invoquem mais a geografia do seu próprio passado.

Sejam distintos e críveis. O público será atraído. /

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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