O poder lento e eficaz da Europa

Continente não pode pôr fim à guerra em Gaza ou na Síria, mas é capaz de acabar, sem armas, com conflito na Ucrânia

Timothy Garton Ash, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2014 | 02h03

Há uma guerra na Europa. Não, eu não estou usando o presente como se fosse o passado, para evocar agosto de 1914. Estou falando de agosto de 2014. O que vem ocorrendo no leste da Ucrânia é uma guerra - uma "guerra ambígua", como foi chamada por uma comissão parlamentar britânica, e não uma guerra declarada, direta, entre dois Estados soberanos. Mas ainda assim é guerra. E a guerra reina em torno da Europa, na Síria, no Iraque e em Gaza.

Não estou afirmando que "a Europa está em guerra". Deixo a hipérbole para Bernard-Henri Lévy. Muitos países europeus não estão envolvidos diretamente no conflito armado, mas não devemos ter ilusões. Durante décadas, convivemos com a ideia tranquilizadora de que a "Europa está em paz desde 1945". Isso sempre foi um exagero. Em regiões da Europa Oriental, conflitos armados menos intensos continuaram na década de 50, seguidos pela invasão soviética da Hungria, em 1956, e da Checoslováquia, em 1968. Na década de 90, a ex-Iugoslávia foi dilacerada por uma série de guerras - como o recente relatório da Força Tarefa de Investigação Especial da União Europeia, que acusou os líderes do Exército de Libertação do Kosovo (KLA) de "crimes de guerra", acaba de nos lembrar.

Foi no Kosovo que vi cadáveres retirados de sacos mortuários e sangue na neve. Com aquele sangue ainda fresco, conversei com um comandante do KLA, Ramush Haradinaj, que observou, memoravelmente, "não sou nenhuma Madre Teresa". Posteriormente, ele foi primeiro-ministro do Kosovo e renunciou ao ser acusado de crimes de guerra em Haia, mas foi absolvido duas vezes. Depois disso, retornei à Europa Ocidental, quando encontrei pessoas discutindo qual organização que "manteria a paz" na Europa. Seria a União Europeia, a Otan, a OCDE, a OSCE ou a ONU? Na ocasião, a premissa era falsa. Hoje, é ainda mais falsa. Há uma guerra na Europa e próxima de sair do controle.

Apesar de todas as diferenças, as pequenas guerras sujas de 2014 têm uma relação importante com a "grande guerra" horrenda que começou em 1914. Muitas dessas pequenas guerras envolvem lutas de definição e controle de territórios que constituem uma colcha de retalhos, deixados por impérios multiétnicos que entraram em colapso 100 anos atrás, e seus Estados sucessores. Assim, por exemplo, a batalha pela região oriental da Ucrânia tem a ver com as fronteiras do império russo. Alguns russos, que lideram o movimento armado no leste da Ucrânia, têm se qualificado como "nacionalistas imperialistas" (de sua perspectiva, eles não são separatistas, mas unionistas). Numa excelente sátira na New York Review of Books, Vladimir Sorokin descreve a Rússia de Vladimir Putin como se estivesse grávida da Ucrânia. "O nome da criança será belo: Adeus ao Império", escreveu ele.

Durante as guerras dos Bálcãs, na década de 90, peças dos quebra-cabeças dos impérios austro-húngaro e otomano foram disputadas e depois reunidas em novos quebra-cabeças menores, como Bósnia, Kosovo e Macedônia. Muitas das fronteiras no mapa atual do Oriente Médio remontam ao acordo firmado após a Primeira Guerra, quando as potências coloniais ocidentais agruparam regiões díspares do antigo Império Otomano e criaram novos protetorados: Iraque, Síria e Palestina.

A grande exceção, naturalmente, é o Estado de Israel. No entanto, Israel também foi criado após a morte dos impérios europeus. Porque a Alemanha nazista, que tentou exterminar os judeus, foi o último surto abominável do imperialismo territorial e racial germânico. Como a Europa vai agir sobre essas consequências no longo prazo? A primeira coisa que precisamos é simplesmente despertar para o fato de que vivemos numa região perigosa.

Ser uma Grande Suíça não é uma opção moral nem prática. Não é moral porque os europeus, entre todos os povos, jamais deveriam silenciar quando crimes de guerra vêm sendo cometidos. E não é prática porque não podemos nos proteger das consequências. Os combatentes de hoje na Síria serão os terroristas de amanhã na Europa. Os desalojados de hoje serão os imigrantes ilegais de amanhã. Permita que essas pequenas guerras continuem a se inflamar e você será derrubado do céu voando da Holanda a caminho da Malásia no voo MH17. Ninguém está seguro.

Enquanto no passado o sinal de alerta partiu da anexação de um território, muitos europeus ocidentais continuaram dormindo durante o Anschluss de Putin na Crimeia. Como afirmaram Stephen Holmes e Ivan Krastev, na Foreign Affairs, a derrubada do avião da Malaysia Airlines, dia 17, foi um momento decisivo, não só porque os corredores aéreos das aeronaves comerciais são áreas onde homens de negócios transitam. Sem esse fato que mudou o jogo, seria improvável que a chanceler alemã, Angela Merkel, conseguisse convencer a opinião pública de seu país e as empresas alemãs da necessidade de impor sanções mais severas contra a Rússia de Putin.

No entanto, para que serve o poder econômico brando e lento da União Europeia frente ao poder duro e rápido do Kremlin? Ou, na verdade, contra todos os poderes duros e rápidos do Oriente Médio? Para que serve a manteiga contra os canhões? A resposta é essa: mais do que você pode imaginar. A Europa sozinha não pode acabar com a guerra no Oriente Médio. Somente trabalhando com os EUA e com a cooperação da Rússia poderá trazer a paz para a Síria ou Gaza. Contudo, ela deve ter poder para punir a Rússia por manter sua artilharia bombardeando o Exército ucraniano e para convencer e habilitar as autoridades ucranianas a firmar o mais generoso pacto logo que o controle do seu território soberano for restaurado.

Mesmo as mínimas sanções implementadas até agora pela Europa têm desgastado o regime de Putin. As sanções mais vigorosas decididas pela Europa terão, com o tempo, um impacto maior. As democracias liberais, em geral, são mais lentas para agir do que as ditaduras. E uma comunidade voluntária de 28 democracias está condenada a ser ainda mais lenta. As medidas econômicas levam muito mais tempo para causar impacto do que as militares, mas no final podem ser mais eficazes.

Há 100 anos tivemos "os canhões de agosto", na frase de Barbara Tuchman. Hoje, temos a "manteiga de agosto" (em economia, canhões e manteiga são exemplos clássicos de trade-off no estudo da curva de possibilidade de produção). Observe o papel diferente assumido pela Alemanha naquela época e hoje. Lentamente, passo a passo, o governo de Berlim está fazendo a coisa certa. A Alemanha está sentindo o peso dos seus vínculos econômicos com a Rússia, embora, com muita razão, insista que o sofrimento seja compartilhado por França, Grã-Bretanha e Itália. Algumas coisas mudam. Algumas chegam mesmo a melhorar. / Tradução de Terezinha Martino

* É professor de estudos europeus na Universidade de Oxford

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