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O policial jihadista que assassinou colegas na sede da polícia francesa

Mickaël Harpon, o homem que esfaqueou policiais em Paris, tinha acesso a informações de segurança

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2019 | 05h00

Começou com um morto. Na quinta-feira, na central de polícia de Paris, um policial crava uma longa faca em outro policial. Sai correndo e gritando pelos corredores. Mata de novo. Quatro policiais terminam mortos, entre eles uma jovem, e um quinto fica ferido. O assassino é abatido por outro policial que estava prestes a morrer apunhalado. A carnificina durou sete minutos.

O lugar em que ocorreram os assassinatos, o centro nervoso da segurança nacional, dá um tom ainda mais sinistro à orgia de sangue. Alguns começaram logo a perguntar se era mais uma festa macabra do jihadismo. Não era, afirmou horas depois o ministro do Interior, Christophe Castaner. O matador, segundo ele, era um jovem excelente, um tipo comum que enlouqueceu de repente. Não tinha nenhuma ligação com os “loucos de Deus”, que matam em nome da glória de Alá e de seu profeta.

No dia seguinte, sexta-feira, colegas do assassino ajudaram a montar um perfil. Era muito diferente do traçado pelo ministro do Interior. O homem se chamava Mickaël Harpon e era casado havia dez anos. Converteu-se ao Islã há alguns anos e costumava dizer coisas chocantes.

Por exemplo, quando jihadistas assassinaram friamente toda a redação do semanário satírico Charlie Hebdo, ele comentou: “Tiveram o que mereciam”. Anos atrás, ele parou de dar bom dia a suas colegas policiais. Frequentava também a mesquita de Gonesse, perto de Paris, um ninho de salafistas.

Os cérebros do governo cogitaram que a mulher de Harpon, convertida como ele ao islamismo, pudesse ser sua cúmplice, mas ela não era e foi libertada após três horas de interrogatório. Os 36 tuítes que ela e o marido trocaram na manhã da chacina tinham conteúdo exclusivamente religioso.

O perfil do matador foi concluído, e era apavorante. Harpon trabalhava na área de informática. Visitava todos os escritórios para fazer a manutenção dos poderosos computadores utilizados pela polícia. Assim, houve tremores de medo e cólera sobre o que ele poderia ter deixado em seu computador. De fato, um arquivo seu aberto pelos investigadores continha milhares, dezenas de milhares, de informações secretas sobre o pessoal da segurança. 

Era um tesouro – um tesouro maligno se seu conteúdo codificado fosse divulgado nas fileiras jihadistas. Nesse caso, centenas de agentes secretos, entre eles os mais bem informados da França, passariam a ser vistos como espiões e detectores de segredos de Estado. Além disso, centenas de policiais de elite teriam suas vidas escancaradas à curiosidade do povo.

Estamos há cinco ou seis dias da descoberta desse abecedário do mal e, em princípio, os endereços e as peculiaridades dos citados não foram revelados. Mas se compreende por que eles e suas famílias cederam ao pânico e tremeram. Como tremeu provavelmente o ministro do Interior, marcado para sempre por seu grave erro de avaliação. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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