O ponto mais quente do planeta

Eventos climáticos extremos no Oriente Médio devastam a região enquanto conflitos se arrastam sem trégua

THOMAS L. FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2015 | 02h00

Minha previsão para o futuro das relações entre sunitas, xiitas, árabes, turcos, curdos e israelenses é a seguinte: se não puserem um fim ao seus conflitos, a Mãe Natureza destruirá a todos antes que eles o façam reciprocamente. Gostaria de destacar algumas novidades que talvez os leitores tenham perdido durante o debate sobre o acordo nuclear iraniano.

No dia 31, o jornal USA Today noticiou que, em Bandar Mahshahr, no Irã, cidade próxima do Golfo, o índice de calor chegou a quase 77º C, enquanto uma onda de calor castigava todo o Oriente Médio, que já é um dos lugares mais quentes da Terra. "Foi uma das leituras mais incríveis da temperatura que já vi e uma das mais extremas em todo o mundo", afirmou o meteorologista Anthony Sagliani, da AccuWeather.

"Enquanto a temperatura era de 'apenas' 46º C, o ponto de orvalho era de incompreensíveis 32º C. Uma equação que combina calor e umidade, medida pelo ponto de orvalho, constitui o índice de calor - ou como a temperatura é de fato sentida pelo ser humano".

Então vimos algo inédito: parte do governo iraquiano foi destituída por não ter fornecido ar-condicionado aos cidadãos. Há duas semanas, o primeiro-ministro Haider Abadi aboliu os três cargos de vice-presidente e o de vice-primeiro-ministro, e propôs reformas abrangentes visando o combate à corrupção após manifestações provocadas pelo fato de o governo fornecer energia para manter o ar-condicionado funcionando apenas por algumas horas por dia num período em que as temperaturas foram de quase 49º C.

Como Anne Barnard, do NYT, noticiou no dia 1°, a questão do calor no Iraque "ofuscou até a guerra com o Estado Islâmico. O primeiro-ministro declarou um fim de semana de quatro dias para que as pessoas não saíssem ao sol e ordenou a proibição de um dos privilégios mais cobiçados pelos funcionários do governo: eletricidade para ar-condicionado 24 horas por dia".

No dia 19 de fevereiro de 2014, a Associated Press noticiou sobre o Irã: "A primeira decisão de gabinete tomada sob o novo presidente iraniano, Hassan Rohani, não se referiu à solução da disputa nuclear do seu país com as potências mundiais. Foi um apelo para impedir o desaparecimento do maior lago da nação. O Lago Oroumieh, um dos maiores lagos salgados do planeta, encolheu em mais de 80%, para cerca de 1.036 km² na década passada, principalmente devido às mudanças climáticas, ao aumento da irrigação nas fazendas do seu entorno e ao represamento dos rios que alimentam a massa de água.

Francesco Femia e Caitlin Werrell dirigem o Centro para o Clima e a Segurança em Washington, que acompanha estas tendências. Eles observaram que um estudioso da Ásia Meridional, Michael Kugelman, afirmou recentemente "que, este ano, no Paquistão, morreram mais pessoas por causa do calor do que pelo terrorismo".

Por fim, observaram: "As relações entre o governos e sua sociedade estão sendo pressionadas por esses eventos extremos e tal situação provavelmente se agravará, dadas as projeções sobre o clima para muitos desses países. Governos que atenderem às reivindicações da sociedade diante dessas emergências provavelmente fortalecerão este contrato social, enquanto os que não o fizerem poderão enfraquecê-lo."

De fato, basta ver a Síria: sua guerra civil foi precedida pela pior seca dos anos de história moderna do país, provocando o êxodo de um milhão de produtores agrícolas e pecuaristas para as cidades, onde o governo de Bashar Assad deixou de protegê-los, alimentando a revolta.

Todos os habitantes da região estão brincando com fogo. Enquanto lutam para determinar quem é o califa, quais são por direito os herdeiros do profeta Maomé que viveu no século 7 - sunitas ou xiitas - e a quais deles Deus entregou a terra santa, a Mãe Natureza não permanece ociosa. Ela não faz política - apenas física, biologia e química. E se essas se combinarem da maneira errada, ela as destruirá.

O único "ismo" que nos salvará não é o xiismo ou o islamismo, mas o "ambientalismo' - entendendo-se que não existe ar xiita ou água sunita, só recursos comuns, os ecossistemas compartilhados por todos os habitantes da Terra, e, a não ser que esses decidam cooperar para a sua administração e preservação - as mudanças climáticas dizem respeito a todos -, deveremos esperar uma imensa devastação ecológica. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

THOMAS L.  FRIEDMAN É COLUNISTA

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