Adam Ferguson/The New York Times
Adam Ferguson/The New York Times

O ponto turístico mais improvável da Austrália: um local de teste de bombas atômicas

Desde 2016 os visitantes podem passar alguns dias em Maralinga, um longo trecho de terra no remoto deserto na região sudoeste do país, onde foram realizados testes nucleares entre entre 1956 e 1963

Ben Stubbs / The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2018 | 06h00

MARALINGA, AUSTRÁLIA - Maralinga, um trecho estéril de terra no remoto deserto na região sudoeste da Austrália, é o único local onde foram realizados testes nucleares no país que é aberto a turistas. E Robin Matthews é o único guia turístico nuclear da Austrália.

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Os visitantes de Maralinga - instalação militar desértica do tamanho de Manhhatan - que esperam encontrar seu guia com roupas de proteção contra radiação e máscaras especiais vão se decepcionar.

Em vez disso, Matthews, de 65 anos, costuma usar um boné de algum time de beisebol e ostentar um cigarro pendurado em seus lábios rachados. Sua pele, profundamente bronzeada, está coberta com uma narrativa de tatuagens desbotadas desde muito antes de isso estar na moda.

"Sim, ainda há radiação aqui", diz Matthews ao dirigir um miniônibus aos locais onde os governos de Austrália e Reino Unido lançaram uma série de bombas entre 1956 e 1963, o que deixou o terreno com enormes crateras e envenenou dezenas de moradores nativos e seus descendentes.

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Naquela época, o governo colocou centenas de cobaias humanas - vestindo apenas uma bermuda e meias longas - na frente das áreas de teste. Os efeitos das grandes doses de radiação foram devastadores.

Hoje em dia, depois de uma limpeza que custou milhões de dólares, a radiação representa pouco perigo para os visitantes desde que eles não "comam porções de pó (ainda radioativo)", disse Matthews.

Maralinga, que significa trovão em Garik - idioma extinto dos aborígines -, é um destino turístico improvável. O lugar é quente, árido e fica a mais de 1.100 km a oeste de Adelaide, o que torna o acesso bastante complicado. 

Quando as visitas turísticas começaram em 2016, só era possível chegar ao vilarejo em um dos dois voos semanais operados a partir de Ceduna, a maior cidade nas proximidades, com uma população de menos de 3 mil pessoas.

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Neste ano, os moradores de Maralinga esperam aumentar o número de visitantes. A administração do vilarejo, responsável pelo local dos testes nucleares, aumentará o número de voos regulares, estenderá a duração das visitas para três dias e formulará em parceria com o governo do Sul da Austrália um plano de negócios para atrair mais visitantes, informou Sharon Yendall, gerente-geral do grupo que administra Maralinga.

Histórico

O primeiro teste nuclear em Maralinga foi realizado em setembro de 1956, dois meses antes dos Jogos Olímpicos de Melbourne. A explosão - tão poderosa quanto a da bomba que os EUA lançaram sobre Hiroshima, no Japão - foi a primeira dos sete testes atômicos realizados no local.

Mas foram os chamados "testes menores" que causaram mais angustia. Realizados em segredo, eles foram usados para avaliar quão tóxicas eram as substâncias das bombas, incluindo o urânio e o plutônio 239, e como reagiriam quando queimadas ou explodidas. 

Para garantir a segurança dos turistas no local, uma área foi limpa por cientistas especializados em radiação ao custo de mais de 100 milhões de dólares australianos, o equivalente a R$ 266 milhões.

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Em uma das áreas que os visitantes podem acessar estão 22 grandes crateras, cada uma delas com ao menos 15 metros de profundidade, revestidas em concreto armado para evitar o vazamento de radiação.

O local parece um canteiro de jardim recentemente cultivado, estendendo-se por centenas de metros, em um círculo quase perfeito. Pontilhando a terra vermelha do deserto há fragmentos de metal retorcido. Exceto por alguns camelos selvagens próximos, é tudo estático e silencioso.

Não houve pressão explícita ou pressão da mídia sobre o que aconteceu em Maralinga até a década de 1970, quando os feridos pelas explosões começaram a aparecer e um pequeno grupo de jornalistas e políticos tomou atitudes mais críticas sobre os testes e o sigilo em torno deles.

Matthews visitou a região pela primeira vez em 1972. Sua mulher, Della, é membro do povo Anangu e quando as terras foram descontaminadas os dois foram designados os primeiros responsáveis por Maralinga.

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Recentemente, enquanto se preparava para a chegada de uma avião fretado cheio de turistas, ele disse que adoraria ser substituído como guia turístico por descendentes dos indígenas que habitavam a região antes dos testes, mas que entendia o motivo disso não ocorrer.

"Agora trazemos nossos filhos e netos aqui para explicar o que acontecer", diz Matthews. "Esta é a terra deles (os povos originários) e de seus ancestrais."

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