O populismo de Chávez durará por décadas

Morte do líder e estagnação dos preços das commodities devem acelerar declínio da 'revolução bolivariana' na região, mas imagem de defensor dos pobres ficará

É JORNALISTA, ANDRES, OPPENHEIMER, THE MIAMI HERALD , É JORNALISTA, ANDRES, OPPENHEIMER, THE MIAMI HERALD , O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h03

A morte do presidente venezuelano, Hugo Chávez, muito provavelmente marcará o início do fim da influência política da Venezuela na América Latina, mas é provável que sua influência na Venezuela dure muitas décadas.

Ao contrário da sabedoria convencional na mídia internacional de que Chávez era o herdeiro político do líder guerrilheiro Fidel Castro que virou presidente em Cuba, o venezuelano, morto na terça-feira, provavelmente passará para a história como um fenômeno político mais próximo do homem forte argentino Juan Domingo Perón.

Como Perón, Chávez era um oficial militar e golpista que primeiro flertou com o fascismo, depois guinou para a esquerda, e uma vez no poder, distribuiu milhões aos pobres graças a um boom nos preços mundiais das commodities, o que o distinguiu de presidentes venezuelanos anteriores que só haviam tratado demagogicamente as massas empobrecidas do país. E, como Perón, Chávez era um narcisista - ele uma vez usou a palavra "eu" 489 vezes em apenas um discurso (em 15 de janeiro de 2011) - que construiu um culto da personalidade ao seu redor e impulsivamente distribuiu bilhões de dólares no país e no exterior sem nenhuma prestação de contas, mesmo destruindo as instituições e boa parte da economia de seu país.

A influência de Chávez na América Latina durante seus 14 anos no poder cresceu na proporção direta dos preços mundiais do petróleo.

Quando ele assumiu o cargo, em 1999, os preços do petróleo pairavam em torno de US$ 9 o barril. Quando os preços do petróleo começaram a subir gradualmente para mais de US$ 80 o barril nos anos seguintes, Chávez começou a cobrir as despesas de políticos leais na Bolívia, Nicarágua, Equador e outros países latino-americanos, e por fim construiu seu bloco, a Alba (Aliança Bolivariana para a América), coalizão de aliados latino-americanos que seguiam seu modelo "narcisista-leninista".

Em 2006, Chávez estava distribuindo até US$ 3,7 bilhões por ano na América Latina - ante US$ 1,2 bilhão do governo George W. Bush - para comprar influência política na tentativa frustrada de conseguir respaldo para obter um assento para a Venezuela no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Muitas de suas promessas grandiosas de dinheiro jamais se materializaram - como o oleoduto que deveria ir de Caracas a Buenos Aires, que os céticos da época batizaram de "Hugoduto" - e algumas de suas promessas de projetos enormes de infraestrutura na África e na Ásia provocaram críticas em casa, onde havia estradas e pontes em ruínas.

Mas a influência de Chávez no exterior começou depois que os preços do petróleo atingiram um preço recorde de US$ 146 o barril, em 2008. Desde então, e especialmente depois que Chávez foi diagnosticado com uma nunca revelada forma de câncer em meados de 2011 e os preços do petróleo caíram, a generosidade de Chávez com os petrodólares confinou-se a Cuba, Bolívia, Nicarágua, Equador e alguns países do Caribe.

Agora, com a economia venezuelana beirando o caos, uma taxa de inflação de 30% e os preços do petróleo sem probabilidade de atingir os recordes anteriores no futuro próximo, a Venezuela terá de desistir de suas ambições regionais pela simples razão de que ficou sem caixa.

E, a despeito de quem governará a Venezuela no futuro, os dias da megalomania populista com base no petróleo provavelmente acabaram em razão das tendências do setor energético.

Pela maioria das projeções, os Estados Unidos substituirão a Arábia Saudita como os maiores produtores mundiais de petróleo em cinco anos, o que acarretará uma redução das importações americanas de petróleo e um declínio dos preços mundiais do produto. Isso dificultará para os sucessores de Chávez continuar financiando aliados populistas radicais da Venezuela na região.

Na própria Venezuela, porém, o chavismo provavelmente permanecerá vivo como a maior força política durante gerações. Como os anos de Chávez no poder coincidiram com o maior boom do petróleo na história recente da Venezuela, e porque Chávez distribuiu tanto dinheiro aos pobres, ele muito provavelmente será lembrado mais como um "defensor dos pobres" do que como o populista que destruiu o setor privado do país, afugentou investimentos e deixou a Venezuela mais dependente de petróleo do que nunca.

De agora em diante, à semelhança do que ocorreu na Argentina após a morte de Perón, a maioria dos candidatos presidenciais se declarará chavista, mesmo se tiver desprezado o militar golpista que virou presidente.

Matizes. E, como na Argentina das últimas décadas, veremos políticos "chavistas" de todos os matizes: esquerdistas radicais, moderados, centristas e direitistas. Em seus intermináveis discursos, que às vezes duravam mais de seis horas, eles encontrarão citações memoráveis suficientes para respaldar quase toda teoria política.

Guillermo Lousteau, um professor da Universidade Internacional da Flórida que chefia o Instituto Interamericano para Democracia, acredita que Chávez passará para a história não como Perón, mas como Ernesto "Che" Guevara - uma figura cult cuja influência hoje é mais romântica do que política.

"Chávez se tornará um ícone cultural: veremos camisetas com o rosto de Chávez como vemos camisetas com o rosto de Che, mas sua influência não irá além disso", disse Lousteau. "Chávez não está mais vivo para manter o movimento chavista unido, como Perón estava após ser derrubado do cargo", prosseguiu Lousteau. "Sem um líder carismático, e com uma economia se deteriorando, o chavismo implodirá."

Minha opinião: os ciclos políticos da América Latina tendem a mudar a cada tantos anos, e a morte de Chávez - juntamente com a estagnação dos preços das commodities - provavelmente acelerará o declínio da "revolução bolivariana" de Chávez na América Latina.

Assim como tivemos ditaduras militares nos anos 70, social-democracias nos 80, governos favoráveis ao livre mercado nos 90 e chavismo nos anos 2000, podemos estar entrando em uma nova década de um pragmatismo um tanto diferente, preferivelmente democrático.

Mas a imagem imerecida de Chávez como o maior defensor dos pobres da região - aliás, países como Peru e Chile reduziram suas pobrezas mais do que a Venezuela nos últimos anos, e sem enfraquecer suas democracias - terá um impacto negativo duradouro sobre a Venezuela. Como geralmente ocorre em países ricos em commodities, líderes populistas prosperam durante épocas de boom das commodities mundiais. Depois, quando os preços das commodities caem e eles deixam os cargos - seja depostos ou, como no caso de Chávez, morrendo no cargo - seus sucessores precisam tomar medidas econômicas impopulares, e os seguidores dos antigos líderes populistas podem dizer, "vocês estavam melhores quando nós estávamos no poder".

A Venezuela não será exceção na maldição das commodities da América Latina. O populismo de Chávez continuará popular por décadas. Levará tempo - e educação - para convencer muitos venezuelanos de que o chavismo foi "pão hoje, fome amanhã", e os países mais bem-sucedidos são antes os que têm instituições fortes do que os que têm homens fortes. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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