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O populismo mexicano

O povo que aplaude López Obrador compreenderá que a era dos caudilhos deve ficar para trás na América Latina

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2019 | 07h00

No salão principal da Universidade de Guadalajara, sob o espetacular mural de José Clemente Orozco contra o fanatismo ideológico, foram realizadas três mesas redondas das quais participaram cerca de 15 intelectuais mexicanos, os mais eminentes do país - que, apesar das distintas opiniões, manifestaram preocupação com a reviravolta que vem ocorrendo na política desde que Andrés Manuel López Obrador assumiu a presidência do México.

Héctor Aguilar Camín, escritor, jornalista e diretor da revista Nexos, alertou que, tanto nas suas iniciativas como em suas intenções, López Obrador parecer estar erigindo uma estrutura mais pessoal e permanente, que as instituições democráticas mexicanas, recentes e frágeis, não estão em condições de resistir.

O historiador Enrique Krauze, que foi vítima de uma recente campanha de descrédito e intimidação por suas críticas ao governo, falou extensamente sobre o risco de o “messias tropical” - assim ele chamou o novo presidente em um célebre ensaio - estar agindo de tal maneira que poderá cruzar as fronteiras da democracia mexicana para permanecer no poder, por via direta ou por meio de um intermediário, quando terminar o seu mandato - a Constituição mexicana não permite a reeleição.

Este temor foi amplamente compartilhado, com muitas nuanças, pelos participantes, entre eles escritores, juristas, políticos, defensores dos direitos humanos, várias mulheres, como Lisa Sánchez, que, numa intervenção bastante aplaudida, defendeu a sociedade civil e suas mobilizações em favor dos direitos das mulheres e a igualdade de oportunidades.

Talvez o mais claro e categórico pronunciamento tenha sido o do crítico literário Christopher Domínguez Michael, para quem a deterioração da democracia mexicana é um fato irrefutável, que só se agravará com o poder quase total que os eleitores deram a seu novo presidente, que obteve maioria absoluta no Congresso e desfruta de uma enorme popularidade, da qual se serve para adotar decisões pessoais nas áreas econômica, política e cultural, que, com frequência, surpreendem seus ministros e assessores.

Tudo isso, ele afirmou, deixa entrever um futuro inquietante para o país que tem mais pessoas falando espanhol no mundo inteiro. Outro crítico, o ensaísta e professor universitário, Guillermo Sherida, ofereceu sutis interpretações dessas mesmas críticas.

Todos falaram pausadamente, sem se alterar, e eram ouvidos com uma atenção rigorosa por um público que lotou a sala, especialmente de estudantes universitários. Raúl Padilla, inventor da grande Feira do Livro que acontece todos os anos em Guadalajara, nos havia advertido que talvez ocorressem incidentes. Mas não houve nenhum e os debates que duravam 9 horas transcorreram em absoluta paz.

“Isto é a civilização”, pensei muitas vezes. “Um mundo de ideias e reflexões tão distinto do que estamos acostumados a ver em outras partes, das banalidades e lugares comuns que contaminam a cada dia e cada vez mais a política nos nossos dias.”

As inquietações dos intelectuais mexicanos com seu governo me parecem justificadas. O passado de López Obrador e suas campanhas políticas delatam um dirigente impregnado de populismo que ele não tem o cuidado de dissimular desde que assumiu o poder. Todas as manhãs, durante duas horas seguidas, López Obrador realiza uma entrevista coletiva na qual os jornalistas presentes parecem ser mais submissos do que independentes.

Suas decisões são adotadas de improviso, prescindindo das normas legais, mediante decretos que, depois, seus funcionários ordenam, não sem dificuldade, para lhes dar uma cobertura legal. E todas suas iniciativas parecem guiadas mais por instinto ou ideia de momento do que com base em um programa ou um acordo, o que ele propôs na sua campanha e esqueceu.

Assim ocorreu com a construção do novo aeroporto da Cidade do México, que ele cancelou de maneira arbitrária e provocou sua primeira altercação com o empresariado mexicano. É verdade que sua enorme popularidade o protege contra todas as críticas, mas isso parece ter se intensificado no personagem que os intelectuais veem nele: o caudilho tradicional latino-americano, voluntarista e despótico que, exatamente por ser popular, acha que está acima das leis e das normas democráticas.

Não há censura de imprensa por uma razão que foi explicada, com muita lucidez, pelo ex-chanceler do México Jorge Castañeda, ensaísta e professor universitário hoje nos EUA. Anunciantes com mais peso na economia, empresários importantes, recebem um telefonema do próprio presidente ou de um intermediário da confiança dele, aconselhando-os ou pedindo que reduzam ou cancelem matérias nos jornais - como deve ter ocorrido com o Reforma, grande jornal do México, que, por apoiar as críticas dos seus colunistas ou o próprio jornal formulá-las, viu-se desfavorecido pelo poder e seus anúncios diminuíram de maneira dramática.

Os empresários que querem viver em paz, especialmente com um governo populista, não hesitam e acatam a sugestão feita. Deste modo, os meios de comunicação ameaçados moderam suas críticas ou correm o risco de falir. Assim se instala a censura hoje nos países democráticos: asfixiando economicamente a imprensa - ou seja, as emissoras ou redes de TV independentes ou insubmissas.

O México é um grande país e, com todos os defeitos do seu velho sistema político, desde que o ex-presidente Zedillo autorizou eleições realmente livres, em 2000, tem vivido um processo de democratização indiscutível em que tanto as elites como a população, de maneira geral, têm participado com entusiasmo.

Os governos das últimas décadas foram eleitos em escrutínios legítimos e, no campo da política internacional, o país vinha participando do chamado Grupo de Lima, que tem mantido uma posição impecável em casos como os de Venezuela e Nicarágua, dois regimes autoritários e corruptos, exigindo eleições livres e defendendo a oposição vítima de maus-tratos, prisões, torturas e assassinatos. Desde que López Obrador assumiu, optou por uma “neutralidade”, o que equivale a cumplicidade com as duas ditaduras (como se fosse possível ser neutro diante da peste bubônica).

As palestras que se realizaram na Universidade de Guadalajara mostram que não será fácil para o governo atual fazer retroceder todo o avanço vivido pelo México e diante dessa resistência estão intelectuais com espírito crítico, como os que participaram deste fórum.

O povo que aplaude e continua encantado com bravatas de López Obrador compreenderá - esperemos que mais cedo do que tarde - que a era dos caudilhos deve ficar para trás e para sempre em uma América Latina onde a liberdade e a democracia vão substituindo as tiranias populistas que lhe causaram tanto prejuízo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

* MARIO VARGAS LLOSA É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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