O possível início do fim da Otan

Se europeus não aprimorarem capacidade militar, aliança pode tornar-se irrelevante

Judy Dempsey, do The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2011 | 00h00

O secretário americano da Defesa, Robert Gates, sabe como expor seus pensamentos. Em discurso feito na sexta-feira em Bruxelas, seu último na Europa antes de deixar o cargo, Gates criticou duramente a Otan.

O secretário alertou os europeus para o fato de que, se eles não aprimorarem suas capacidades militares, gastarem mais com a defesa e reunirem seus recursos, a Otan enfrenta "uma possibilidade bastante concreta de cair numa irrelevância militar coletiva".

Os europeus estão acostumados às críticas de Washington. Os Estados Unidos faziam comentários deste tipo mesmo durante a Guerra Fria, quando o continente estava dividido entre os soldados da Otan defendendo a Europa Ocidental e as forças do Pacto de Varsóvia de prontidão na Europa Oriental.

Naquela época, os europeus em geral aceitavam resignados as críticas americanas. Eles sabiam que a ameaça era real e precisavam dos soldados americanos para protegê-los. Ainda em 1999, depois de ficarem com os ouvidos quentes, os europeus ajudaram a bombardear a Sérvia na tentativa de encerrar quase uma década de guerra civil e limpeza étnica na ex-Iugoslávia, atrocidades que ocorriam no próprio quintal da Europa.

Mas agora, com exceção da Grã-Bretanha e da França, a maioria dos países europeus não vê a necessidade do poderio militar. Eles parecem não acreditar que a força militar seja capaz de solucionar conflitos. E apesar dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 contra os EUA, os europeus não se sentem tão ameaçados quanto os americanos. De acordo com os analistas, é isto que está prejudicando o relacionamento transatlântico.

"Os EUA são uma potência global, ao passo que a Europa pensa em moldes regionais e acredita estar cercada de aliados", disse Markus Kaim, especialista em defesa do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim. "Os EUA percebem como esta desmilitarização está prejudicando a Otan."

Apenas 5 dos 28 membros da Otan - EUA, Grã-Bretanha, França, Grécia e Albânia - gastam na defesa os 2% de seu PIB conforme o estipulado por acordo. Desde o colapso do Muro de Berlim em 1989, "a parcela dos gastos americanos defensivos com a Otan aumentou 75%, num momento em que cortes orçamentários politicamente dolorosos e reduções nos benefícios sociais são debatidos no país", disse Gates.

"Se esta tendência se mantiver, ou seja, se os europeus não se mostrarem dispostos a arcar com uma parcela maior deste fardo, então o relacionamento transatlântico se verá diante de uma grave ameaça. Pode até ser que, nos próximos anos, o mundo deixe de falar na Otan", disse Andrew A. Michta, diretor do gabinete do Fundo Marshall Alemão dos Estados Unidos em Varsóvia.

Conflito. Os EUA não foram capazes de mobilizar o apoio da Otan quando invadiram o Iraque em 2003. Em vez disso, o país deve de contar com uma "coalizão dos dispostos", prejudicando a coesão da aliança. As fissuras foram maquiadas conforme os europeus continuaram a ajudar os EUA no Afeganistão, ainda que relutantemente.

De fato, Gates disse ter ficado surpreso com a persistência da Otan no Afeganistão, uma guerra muito impopular nas capitais europeias. "Quatro anos atrás, eu nunca teria esperado que a aliança mantivesse a operação neste nível por tanto tempo, e muito menos que houvesse em 2010 um aumento significativo nos efetivos empregados", disse ele na reunião em Bruxelas.

O contraste com a atual campanha aérea contra a Líbia não poderia ser mais gritante.

"Apesar de todos os membros da aliança terem votado a favor da intervenção na Líbia, menos da metade deles de fato participou da missão, e menos de um terço se dispôs a se envolver nos voos e bombardeios", disse Gates, referindo-se ao Conselho da Otan para o Atlântico Norte, e não às Nações Unidas, foro em que a Alemanha se absteve da votação. Ele atribuiu a responsabilidade por isto à falta de capacidades militares.

E a vontade política é outra que se faz ausente. Com efeito, a Líbia é o mais claro exemplo disto, mostrando por que os EUA não podem mais contar com os europeus para dar conta de parte do trabalho - e também o motivo pelo qual os europeus não estão dispostos a recorrer à força militar como ferramenta capaz de provocar uma mudança de regime.

"A Líbia é para a Otan sua primeira missão pós-Afeganistão", disse Kaim. "Os europeus aprenderam as lições do conflito anterior. Estão relutando cada vez mais em se envolver em esforços de construção nacional apoiados no uso da força." Gates compreende esta divergência e também o esfriamento das relações transatlânticas. Ele nem mesmo sabe se os EUA continuarão a acreditar na Otan e a investir nela. De fato, Gates representa uma geração que cresceu com a Guerra Fria. Em ambos os lados do Atlântico, esta geração, que exerceu considerável influência, está cedendo lugar a elites mais jovens que valorizam muito menos a aliança transatlântica.

"A Otan e o relacionamento transatlântico sempre foram um grande interesse na vida profissional de Gates", disse Stephen J. Flanagan, vice-presidente sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington.

"Mas a nova geração de líderes políticos nos EUA não partilha da vivência dele na luta comum durante a Guerra Fria ao lado de nossos aliados europeus", disse ele. "São mais inclinados a enxergar os recursos americanos dedicados à defesa transatlântica sob um prisma muito mais calculista, questionando se o investimento vale mesmo o dinheiro gasto." É provável que a Otan sobreviva. A aliança continuará a ser útil para os EUA quando o país precisar construir coalizões de dispostos. Pode também se mostrar útil no momento de conferir legitimidade a missões militares futuras. Mas seu papel enquanto principal organização transatlântica dotada de um propósito verdadeiramente unificado e de ampla solidariedade entre seus membros está sendo questionado.

Mas pode haver um lado positivo em tudo isto.

Os EUA há muito encorajam a União Europeia a desenvolver uma política de segurança que possibilite aos europeus cuidar do seu próprio quintal: países e regiões como Bósnia, Moldávia, o sul do Mediterrâneo, Bielo-Rússia, Ucrânia e o Cáucaso. Até o momento, a União deu poucas amostras de um pensamento estratégico, e menos ainda de uma coordenação dos seus esforços de defesa.

É por isso que, no último mês de novembro, Grã-Bretanha e França chegaram a um acordo amplo de cooperação militar. "O acordo questionou a sustentabilidade e a relevância das políticas de segurança e defesa da UE", disse Clara Marina O"Donnell, especialista em defesa do Centro para a Reforma Europeia, em Londres.

Outros países europeus praticamente ignoraram o acordo. Talvez seja necessária uma gradual retirada dos EUA para convencer os europeus de que eles precisam de uma estratégia de segurança para o longo prazo que seja digna deste nome. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É CORRESPONDENTE NA ALEMANHA

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