'O povo está derrubando 7 mil anos de despotismo'

Para escritor egípcio, ultimato das Forças Armadas ao presidente Mohamed Morsi não é golpe de Estado

Entrevista com

Andrei Netto - enviado especial / Cairo, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2013 | 02h01

Em entrevista ao Estado, o cientista político Adel Rifaat, autor de obras sobre a ditadura de Hosni Mubarak no Egito e a tentativa de islamização do país, analisa a hipótese de queda de Mohamed Morsi. Para ele, a Irmandade Muçulmana não resistirá à massa nas ruas do Cairo.

Analistas divergem sobre o que se passa no Egito hoje. Trata-se de um golpe de Estado?

Adel Rifaat - Não. Há 30 milhões de egípcios que se manifestam contra o regime. Eles não são conduzidos por nenhum partido, por nenhum movimento. Começou com quatro jovens que lançaram uma petição que conquistou a multidão. Se agora o Exército pensa em intervir, não é para tomar o poder, mas para fazer o povo ser ouvido. A oposição, liderada por Mohamed ElBaradei, deu 24 horas para passar à desobediência civil e à greve geral. Esse é o impasse.

Podemos esperar um confronto entre opositores e partidários de Morsi?

Adel Rifaat - Como há um movimento sindical muito forte aliado, podemos esperar um grande confronto. Mas, repito, há 30 milhões de pessoas que assumiram o risco. Isso é muito profundo, é o povo egípcio que está se levantando contra o despotismo, que derrubou Mubarak, que suportou o Exército por um ano e meio. É o povo que está dizendo não. Morsi é falso. Ele está tentando reagrupar todo o poder despótico. E o povo está derrubando 7 mil anos de despotismo.

O que o ultimato das Forças Armadas significa?

Adel Rifaat - O Exército diz que está ao lado do povo e tem como missão defender a ordem pública. Morsi já faz concessões, mas, a meu ver, tarde demais. Creio que ele não terá outra alternativa senão não deixar o poder.

Quais foram os erros de Morsi em seus 12 meses de governo?

Adel Rifaat - Há uma situação social e econômica da qual a Irmandade Muçulmana não tem culpa. É uma transição difícil, mas Morsi cometeu um erro grave: o de não entender que ele foi eleito como representante não só da Irmandade Muçulmana, mas também da juventude liberal. No poder, ele impôs uma maioria artificial, não representativa, que aprovou uma Constituição preparada em uma noite e imposta em uma queda de braço. Ela tem teor islamista, sem representatividade popular. Os egípcios depuseram um déspota, Mubarak, e Morsi tenta se transformar em um novo déspota.

Podemos afastar a hipótese de um golpe de Estado?

Adel Rifaat - Abdel Fattah Al-Sisi, chefe do Estado-Maior, disse que está com o povo e não quer tomar o poder. É verdade que não sabemos qual será a sequência dos fatos. A Irmandade Muçulmana ainda pode juntar um milhão (de pessoas) na frente da sede do partido. Eles (os governantes) fracassaram, não estiveram à altura da missão. São uma parte do sistema despótico. A Irmandade Muçulmana não será nada comparada com os 30 milhões de egípcios nas ruas.

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