O preço da frieza

Obama parece relutar em dedicar tempo para construir bons relacionamentos com líderes estrangeiros

JACKSON DIEHL, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Há pouco tempo, pedi separadamente a vários funcionários de alto escalão do governo que indicassem um líder estrangeiro com quem Barack Obama tenha estabelecido um forte relacionamento pessoal em seu primeiro ano de mandato. Seguiu-se muita hesitação.

Um funcionário mencionou o presidente francês, Nicolas Sarkozy, que deve trazer no próximo mês sua glamourosa primeira-dama, Carla Bruni, à Casa Branca para um jantar de casais na companhia de Barack e Michelle Obama. Mas, na França, a amargura de Sarkozy em relação a Obama - o produto de várias ocasiões em que o presidente francês sentiu-se esnobado - é um segredo conhecido por todos, comentado abertamente na imprensa francesa.

Em discurso feito em setembro na Assembleia-Geral da ONU, Sarkozy pareceu caçoar da grande iniciativa de desarmamento de Obama, dizendo que "vivemos num mundo real, e não num mundo virtual".

O nome de Angela Merkel também foi citado. De acordo com o que me foi dito, Obama e a chanceler alemã partilham do mesmo estilo pragmático. Mas Merkel também tem demonstrado visível frieza em relação a Obama desde que ele passou por Berlim em sua campanha eleitoral de 2008.

Na ocasião, ela o impediu de aparecer diante do Portão de Brandemburgo, e dizem que ficou ofendida quando Obama não foi à Alemanha para participar da comemoração dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, em novembro. Seja como for, os diplomatas dizem que Merkel tem um relacionamento muito mais próximo com a secretária de Estado americana, Hillary Clinton.

Ninguém falou em Gordon Brown. Trata-se de algo notável: o relacionamento entre o primeiro-ministro britânico e o presidente americano tem sido marcado por consistente proximidade no decorrer dos últimos 30 anos. Basta pensar em Reagan e Thatcher, Clinton e Blair, Bush e Blair.

Mas Obama tem sido retratado em atitudes de desrespeito a Brown desde que o presenteou com um conjunto de DVDs durante o primeiro encontro entre eles realizado há um ano em Washington. No semestre passado, a imprensa britânica relatou que a Casa Branca recusou cinco pedidos de audiência individual entre Obama e Brown nas Nações Unidas e na reunião de cúpula do G-20.

Finalmente, foi-me sugerido um nome inesperado: Dmitri Medvedev. Afirmaram a mim que Obama tinha construído um relacionamento sólido com o presidente russo ao longo de suas muitas reuniões bilaterais, as quais em parte concentraram-se no estabelecimento de um novo acordo de controle para os armamentos nucleares, que ambos poderiam chamar de genuína conquista própria.

Mas o acordo não foi fechado - talvez porque Vladimir Putin, de quem Obama tentou manter certa distância, não goste da ideia. Será mesmo que um presidente americano encontrou no Kremlin o seu aliado estrangeiro mais próximo?

Popularidade. O paradoxo neste caso está no fato de Obama ser ainda extremamente popular no exterior - tanto em países como Alemanha e França quanto em países onde o antiamericanismo foi um problema recente, como Turquia e Indonésia.

Esta popularidade significa que, ao menos nos países democráticos, os líderes estrangeiros têm um considerável incentivo para aproximar-se dele. Até o momento, no entanto, este presidente parece não ter forjado verdadeiras amizades no exterior. Neste sentido, ele é o oposto de George W. Bush que, apesar de tão detestado pelas massas estrangeiras, foi capaz de estabelecer laços de proximidade com uma série de líderes - o espanhol Aznar, o colombiano Uribe, os israelenses Sharon e Olmert, o japonês Koizumi.

Ciúmes e rivalidade política desempenham algum papel - Sarkozy é um dos muitos europeus que gostariam de assumir o papel de aliado mais próximo de Obama, e reagiu mal quando não foi correspondido. Mas outra das principais causas parece ser uma falta de interesse da parte de Obama.

Extremamente concentrado em seus objetivos domésticos, o presidente parece relutar em dedicar seu tempo ao estabelecimento de bons relacionamentos com líderes estrangeiros. Quando alguma questão exigiu decisão ou ação, Obama procurou imediatamente entrar em contato com eles. Caso contrário, mostrou-se em geral indisponível.

Além disso, Obama não hesitou em expressar publicamente seu descontentamento com aliados dos EUA.

Durante todo o ano passado, o presidente americano viu-se envolvido em altercações com o israelense Binyamin "Bibi" Netanyahu; expressou impaciência quando o premiê japonês, Yukio Hatoyama, recusou-se a adotar um acordo relativo a bases militares. Ele criticou em repetidas ocasiões o afegão Hamid Karzai, e abandonou as videoconferências que Bush costumava agendar com o iraquiano Nuri al-Maliki.

Pode-se argumentar que nada disso é relevante. Bush, afinal, era com frequência criticado por depender demais das relações pessoais - lembra-se de como ele olhava fundo na alma de Putin? - , e suas amizades não impediram que o governo Bush fosse condenado por seu "unilateralismo". Em comparação, o governo Obama pode afirmar que obteve resultados bastante positivos na tentativa de conquistar o apoio dos europeus em questões centrais, como o Afeganistão e o Iraque. E a popularidade pessoal de Obama ainda funciona como forma de influenciar líderes de todo o mundo, independentemente da relação pessoal deles com o presidente americano.

Ainda assim, vale a pena perguntar: será que Sarkozy teria lutado contra a opinião pública francesa e enviado mais soldados ao Afeganistão (coisa que ele se recusou a fazer) se Obama o tivesse cortejado mais?

Será que o israelense Netanyahu estaria disposto a assumir mais riscos no (moribundo) processo de paz do Oriente Médio se acreditasse que poderia contar com este presidente americano? Será que Karzai demonstraria mais cooperação com os comandantes americanos nas zonas de combate se Obama o tivesse acolhido? As respostas parecem óbvias. Tanto nas questões domésticas quanto nos assuntos internacionais, a frieza tem seu preço. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

DIRETOR DA SEÇÃO DE OPINIÃO DO JORNAL "THE WASHINGTON POST"

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