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O preço do ‘globalismo’ para Maduro

O regime de Maduro está sendo solapado hora após hora por um efeito dominó 

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 04h00

Quem vê uma geleira glacial desmoronar e desaparecer sob o mar tem a sensação de que foi um ato abrupto, quando na verdade é o resultado de um lento e invisível derretimento interno. Quando o regime chavista for derrubado, parecerá ter sido por multidões nas ruas, debandada dos militares ou a fuga patética de Nicolás Maduro. Mas será apenas a causa aparente.

O regime está sendo solapado hora após hora, por um impressionante efeito dominó no mercado financeiro e petrolífero mundial, a partir do reconhecimento de Juan Guaidó como presidente de direito e das sanções impostas pelos Estados Unidos no dia 28.

Eu comentava duas semanas atrás que a Rússia não sustentaria mais a Venezuela. A companhia petrolífera russa Lukoil anunciou quinta-feira o encerramento das operações de permuta de derivados por petróleo venezuelano, a partir da entrada em vigor das novas sanções americanas. A Venezuela não refina petróleo e não tem dinheiro para comprar derivados.

Já a gigante russa Gazprom informou que não fornece para a estatal venezuelana PDVSA insumos dos quais ela necessita para diluir o seu petróleo e transportá-lo em oleoduto dos campos da Bacia do Orinoco para os portos marítimos. As empresas americanas cessaram esse fornecimento e as europeias não as substituirão.

Ao longo dos últimos anos, a Venezuela pegou emprestados US$ 50 bilhões da China e US$ 17 bilhões da Rússia, e o petróleo venezuelano entregue a esses países não é mais pago, e sim usado para abater as dívidas. Para driblar isso, a Venezuela passou a usar cada vez mais empresas intermediárias para exportar seu petróleo e importar derivados. Essa fonte também está secando. 

A trading suíça Trafigura anunciou o fim das transações com a Venezuela. Ela recebia 34 mil barris de petróleo por dia e revendia para refinarias americanas e chinesas. Em troca, fornecia-lhe derivados. No último trimestre do ano passado, a Venezuela exportou em média 1,45 milhão de barris de petróleo por dia. Desses, 225 mil (15%) iam para as tradings. 

A Trafigura detém cerca de 25% das ações da refinaria indiana Nayara Energy e a Rosneft, 49%. De maneira que a Índia está se fechando também. As sanções não impedem as empresas de receber petróleo venezuelano, mas, no caso das americanas, o pagamento deve ser retido pelo Tesouro, até que a equipe de Guaidó consiga abrir contas bancárias e ter acesso a esse dinheiro. 

A tática é parecida com a oferta de alimentos e remédios, armazenados na cidade colombiana de Cúcuta, na fronteira com a Venezuela, e em breve também em Pacaraima, segundo anunciou a embaixadora María Teresa Belandria, nomeada por Guaidó, depois de se reunir com o chanceler Ernesto Araújo em Brasília. Oposicionistas afirmam que a ajuda já equivale a US$ 100 milhões. São incentivos para os venezuelanos – sobretudo os militares – romperem com o regime chavista.

O deputado oposicionista José Manuel Olivares afirmou que um país latino-americano e outro europeu – sem revelar quais – enviariam aviões aos centros de armazenamento na fronteira, para transportar a ajuda para dentro da Venezuela, que não pode passar por terra por causa de bloqueios erguidos pelo Exército.

Uma eventual invasão do espaço aéreo venezuelano imporia um novo dilema à Força Aérea, que já sofreu um racha significativo, com a adesão do brigadeiro Francisco Yánez, chefe de Planejamento Estratégico, ao governo de Guaidó. 

Derrubar um avião transportando comida e remédios para uma população faminta e doente não seria decisão fácil. Dentro desse plano, Guaidó fala em mobilizar centenas de milhares de pessoas para distribuir, no próximo sábado, a ajuda rejeitada por Maduro. Fica mais fácil entender por que nacionalistas, populistas e autoritários detestam tanto o “globalismo”: já não podem mais fazer o que querem em “seus” países. 

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